domingo, 16 de novembro de 2008

CONTROL.

"Dir-se-ia que suas asas esbranquiçadas , atadas por fortes presilhas, tem nervos de aço, de tal forma fendem o ar com facilidade. Seu corpo começa por um busto de tigre e termina por uma longa cauda de serpente. Não estou habituado a ver tais coisas".
( "Cantos de Maldoror", LAUTRÉAMONT)
º



Maravilhas acontecem em um quarto com as asas da janela semi-abertas. Caduquez precoce, tudo de bom é bastante pouco.
Mas cada segundo vivido deve ser deixado passar, mesmo que na imobilidade de acender um cigarro atrás do outro, sabendo ser usura de tempo, que não existe muito mais o que fazer, a cerveja gelada.
As garotas andam maledicentes mudas humoradas, as que ainda não estão em cadeiras-de-rodas motorizadas pela alta técnica de seus namorados com tração nos quatro membros.
- Sabe, não é bem assim, acho que você sempre exagera.
- As asas da janela, tenho que abrir um pouco, o sol está se enfiando atrás de uma nuvem bem sinistra.
- E a nossa viagem ?!
- Durante um ano eu vivi andando de ônibus no mesmo ritmo e em determinada curva longa, eu de janelinha sem asas, apenas o cheiro enjoativo dos beiconzitos anominais das crianças vomitivas, eu olhava para bem alto, nos ângulos superiores do vidro e via o céu, e lá eu me via em uma viagem com alguém que valesse as penas e atritos, mas existia aquele cheiro a vida em seus segundos e minutos de que eu abdico, beiconzitos oleosos ( no sul chamam sabiamente de GRAXA), as mães conversando com o celular, a criança vomitando nos pés de trabalhadores olhos fechados sonhando com as prostitutas oriundas do décimno terceiro relativo ao tempo de férias vezes os dias contados em fração de horas extras e computadores epilépticos. Por isso eu olhava para a janela e via que atravessava nuvens de fumaça e reencontrava antigos segundos, minutos, areias, praias, correr atrás da bola em um vôlei improvisado de camarões assados, mar azul, bundas deliciosas, almas perfumadas sem bacon, bem antes de vestibular e do enfisema e do Alzheimer da minha mãe. Ela era muito parecida com a Malu Mader, sabe, mas ainda sem clínicas de desintoxicação e urinol.
- Sabe que agora o check-in pode ser feito em terminais eletrônicos nos aeroportos. Uma amiga minha me falou de um lugar delicioso logo depois da fronteira com Goiás.
- Forneira? Eu me atrapalhei todo com contas bancárias, cpf, relógios calcificados e cartões de fidelidade e pontuação atmosférica e universitária, em carreira acadêmica ou essas escadas rolantes de sexo oral nas instâncias vídeos amadores do "secretária do chefe". Escadas rolantes e Escalas De Qualidade de Vida, esse tipo de piada.
- Ainda é muito recente para eu me envolver com alguém, eu ainda amo ele outro. OU eu ainda sou muito tímida para me esfregar na dianteira. OU não é estrategicamente no tempo de agir, eclesiastes. Por isso falo em férias e em uma maneira subterfúgia de sermos felizes. Óperas ao amanhecer.
-BEICONZITOS.
- Façamos um trato até o ano que vem, penso no assunto se você não voltar a fazer aquelas coisas abomináveis.
- Eu apenas me atrapalhei pela arte da solidão maravilhosa, marte de peles, em acertar a fração ofuscante e luminosa das asas da janela com o perfume escolhido por mim: celular desligado, suor da nudez, inapetência do choro se divertindo na trava da garganta...
- Não é isso que quero. Vou procurar uma cadeira de rodas, nem que seja de segunda-mão, pernas, braços, sexo, alma, credo.
- Corra atrás de seus sonhos. É de menino que se torce o pepino geneticamente alterado na fumaça. Uma idéia na cabeça, uma câmera na mão. Na saúde e na doença.
- Eu vou embora.
- Nunca esteve aqui, ou seria OUTRA.
- Você precisa de alguns exames de sangue, urina e espermograma. Cem gramas de queijo do Exército da Salvação na sopa.
- Preciso acertar algumas coisas com as asas do sol e das tempestades vindouras, com licença.
- Nâo deixe seu tempo passar apenas assim...
- Cansativa. Boring, Boring...me traz uma cerveja e vá até um caixa eletrônico salvar sua vida, garota.
- Sabia que estão espalhando coisas e beiconzitos contra você ? Até mesmo telefones celulares com suco gástrico !
- Deixe-me estar. Sabia que estou espalhando asas no vento, no fogo, na terra , na água e nos meus dentes ?
- Incorrigível !
E a GAROTA foi mal-humorada comprar uma camiseta com slogan e senha empregatícia, contrato higiênico e covarde cinza borrado.
Um pouco mais de sol, assim, de gelo, seco isso, as chuvas dos vulcões entram na minha corrente sanguínea, molhe DURO.
Eterna curva
pontual
para o alto daqui:
Maravilhas descadeadas.
º

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

O Porre dos Malacos.


1)
- Por que você é tão anti-social ?
- A sociedade que é anti-social. Eu até que me dou bastante bem com quem sobra.
- Por mim, vai. Por mim. Levanta daí, coloca uma roupa. O cara está morrendo.
- Ah...uma coisa aqui no meu peito...acho que dessa vez eu vou. Fui. Adious.
- Pára. Ele é meu primo mais velho. O único cara que me entendeu quando a gente estava em crise.
- Eu não gostaria de me emocionar agora. O dr. Eduardo falou pra eu me reservar. Posso conseguir um atestado contra primos com câncer no fígado que entendem crises conjugais alheias. Segunda-feira te entrego.
- No fígado mais quinze metástases cerebrais.
- Sei. Ele foi...aquele...o único a te ententer?
- Foi. Ele mesmo.
- Vamos.
- Você muda mesmo rápido de opinião. Nunca sei.
- Nunca saiba. Melhor pra você.
°
2)
Uma casa de luxo. Você abre a porta e praticamente já está dentro da piscina. Só não cai na água porque o bar está a esquerda. Ela vai me apresentabdo para as pessoas, que vão me beijando, me apertando a mão, me dando nojo. Pular na piscina de roupa e tudo. O filho tatuado e sarado conta como vai ser bacana casar com alguém chamada Poli na Inglaterra. Descubro que Poli é ou um cachorrinho toy que late pra mim desde a hora que eu cheguei ou uma mulherzinha magra, perfeita, boas tetas, bunda adequada e um ar de elegância que beira a idiotia. Começo a mostrar a língua primeiro pro cachorro depois pra moça sentada no banquinho, coluna ereta. Nessa o toy pira e eu descubro na bronca que ele chama Malaruche. Poli é a inglesinha mignon perfeita e com crises epilépticas controlada a duras penas pelos maiores neuro-cirurgiões de Oxford. Tenho certeza que embaixo da cabeleira loira há uma dúzia de cicatrizes. Poli, olhe minha língua, Poli, vamos foder na piscina, Poli, olhe a velocidade com que eu consigo mexer isso aqui, Poli, vai tomar no meio do teu cu a serviço da majestade.
A família é grande. Não é a minha família. Dá a impressão de não ser a família de ninguém, mas uma cena que desgrudou de algum filme, outro carinha tatuado, pega o primeiro e se trancam no banheiro, uma velha que bate no peito e repete aos brados "Vou fazer 90 anos em abril", e um grupo assustador de senhoras uns bons saltos além da meia-idade. Todas com a mesma cor de pele. Montam a armação em meio-círculo. Olham pra mim. Penso em correr, Malaruche late selvagem e antes que eu possa chutá-lo da barra da minha calça, lá estão as senhoras, em uma estratégia de ataque pra Sun Tsu nenhum botar defeito. Estou cercado.
- Ah, você bebe alguma coisa, querido ?
- Sim...sim...uísque....
- Ah, estamos todas tão transtornadas.
- Ah, a doença do Dingo.
- Dingo ?
- Ah, meu marido - não sei qual delas deu a resposta. Ou todas elas.
- Sei. Grande Dingo. Obrigado. Sem gelo mesmo.
- Ah, sirva-se, deixei a garrafa ali...
Saco bem onde é o "ali". E acolá, os copos.
- Ah, mas ele está recebendo três vezes por semana a visita de uma terapeuta floral, que aplica cristais sobre os chakras. Você sabe, a gente pode curar a nossa vida. Soube que você adora ler. Que é escritor. Já leu Louise Hay ? A Gasparetto sempre diz que a gente precisa deslocar a energia da morte para onde está a vida...
- Onde está a vida?
- Ah ! Você é ótimo.
- Ah, ele é ótimo !
- Ah, você surfa ? Todos nossos filhos surfam. Só na surfa a Cris, tadinha, ela tem diabetes, bulimia. Mas está noiva. Deve se casar em Estocolmo. Para uma moça com tantos problemas até que Estocolmo já é alguma coisa, né querido ?
- Sem dúvida. Já vejo o slogan "Eu como em Estocolmo: Patrocínio Insulinas de Porco".
- Ah !
- Ah !
- Ah, deve ser humor, né ? Dizem que os escritores...
- Cadê o Dingo? Gostaria de vê-lo.
- Ah, bem, ah, ele fica em um dos quartos lá em cima. A gente não quer misturar o clima festivo com toda essa tristeza. Mas a cada hora uma de nós sobe lá e faz um carinho, lê um pedaço de um bom livro de Salmos Dos Anjos Cabalísticos, limpa o dreno dele e levamos verduras, muitas verduras.
- É. Eu realmente gostaria de vê-lo.
- Ah, um dos meninos leva você. Meninos ? Meninos ? Poli...i don't see...
- O quarto lá em cima. Não se preocupem. Poli pode rachar. Eu me viro. Não se preocupem em levar nada pro Dingo. O Maraluche também precisa de atenção. Né, verme ?
- Au au au au au au !
- Ah, Maraluche, pare lindo !
- Au au au au au au au au au au au !
A garrafa de uísque. Os copos. Questão de dar um salto e distrair...
- Maraluche, seu bostinha, pegue isso.
E lá se foi o coisinha atrás do cigarro. As mamães atrás. Minha oportunidade.
- Ah, ah !
- Ah, é um biscoito, que gentil !
- Ah, é um cigarro ! Larga Maraluche, não engole !
- Ah, engoliu !
- Ah, ele está ficando com os pêlos azuis...
E eu já estava na escada. E armado.
°
3)
Tranquei a porta por dentro.
O quarto fedia merda, bile, verduras da semana passada.
Abri a janela.
Lá embaixo, uma correria danada e depois silêncio. Pobre Maraluche. Veterinários existem também pra isso. Cães fumantes.
Enfim, Dingo:
Deitado na cama.Roxos por todo corpo, pernas inchadas, um cano transparente que saia de sua barriga enorme e babava um líquido negro.
- Dingo, abre o olho. Sei que você não está dormindo.
Ainda de olho fechado:
- O que você quer ? Não respeita um doente terminal ?
- Quero matar essa garrafa de uísque com você. É do bom. Um dos seus, é claro.
Na hora ficou esperto. Agitou. Babou um pouco no canto dos lábios.
Puxei a poltrona e trouxe pra perto da cama. Me servi e depois coloquei uma boa dose pra ele.
- Deixa eu te ajudar. Mais uns travesseiros. Você babando me enoja, Dingo.
- Isso, assim, assim está bom...
- Tim Tim.
- Tim Tim. Quem é você ?
- O marido da sobrinha que você meteu ano passado, Dingo. Ela estava se separando, você aconselhou. Uma semana antes do carnaval. Ela voltou pra casa. Uma quantia de grana alta apareceu na nossa conta conjunta. Eu saquei tudo, a trepada e a grana, antes que ela pudesse se tocar.
- Eu juro...eu nunca iria...
- Dingo. Pare. Vou chamar a sua terapeuta dos cristais. Relaxe. Somos do mesmo tipo. Só que você vai morrer em algumas horas e eu vou continuar por aí.
-...você é o tal escritor que não presta, que faz a coitadinha da....
- Dingo, Dingo. Você está me irritando. Só vim tomar uns uísques com você. Juro que esse papo de saladas está te trazendo o inferno.
-...
- Né não ?
- Pior que está, cara. Vai me serve outra dose.
- Boa.
- Quer dizer que você ficou com a grana. Que grande filho da puta !
- Somos, meu amigo, somos. Mas apliquei bem o seu dinheiro. Coleções completas. Flaubert. Balzac. E discos. Que discos. Bem diferente dos seus moleques que gastam em pó, pranchas e gostosinhas que nem sabem que você existe. E nem querem saber.
- Porra. Pior que é verdade. Me acende um cigarro desses.
- Pega o meu. Acendo um pra mim.
- Ah....que delícia !
- Traga bem. Aproveita. Mas o maço tá cheio. Tem mais de onde veio esse.
- Ótimo. O que é um peido pra quem já está todo cagado?
- Gostei dessa. Posso usar em um dos meus livros ?
- Claro. Se no inferno tiver biblioteca tenho certeza que os seus textos passados, presentes e futuros estarão por lá. Pelo que ela me contou.
- Ela não sabe me ler direito. Se você ainda tivesse tempo eu me recomendaria pra sua ociosidade. Mas imagino que morrer dá um trabalhão.
- Nem te conto. Mas chega sua hora. Mais uma dose, por favor...
- Toma. Caprichada. Pois é, Dingo, mas quando chegar minha hora, espero não estar cercado de gente tão escrota quanto você. Que merda de circo é esse ?
- Como você acha que eu fiquei rico, moleque?
- Uma das donas.
- Bingo. Você continua pobre porque casou com mulher bonita. E bem gostosa. Boas lembranças dela.
- Você prefere que eu peça pra ela subir te bater uma punhetinha ou quer ficar aqui bebendo. Se bem que não sei se ela também não foi acompanhar aquele cachorrinho viado até o pronto-socorro.
- O toy ? Pronto-socorro ?
- Dei um desses cigarros pra ele comer. São fortes, né ?
- Gosto de você, garoto.
- E eu gosto de você, Dingo. Vira aí. Nunca comi um cu com icterícia.
- Que foda. Só rindo. Acho que é mais ou menos assim o jeitão que gente como a gente morre, não foge muito disso, rapaz. Filhos estúpidos, coleção de esposas, amantes, sócio do Iate Clube, uma pilantragem aqui outra ali e quando viu, pumba, já era.
- Deixa disso, Dingo. Louise Ray sempre diz, "você pode curar a sua vida".
- Caralho, seu merdinha. Se eu pudesse me levantar daqui te enchia de porrada.
- Como não pode a gente continua bebendo, fumando e eu esperando você morrer.
- Estou sentimental. Virei um velho bostalhão sentimental. Você tem idade pra ser meu filho. sem sarro agora, imagine que dupla. Hein ?
- Eu teria medo de nós dois juntos, Dingo. Iria ser foda.
- Pobres mulheres.
- Pobre humanidade, Dingo...
- Boa. Serve outra. Tá dando um sono bom.
°
4)
- O plantonista achou um cigarro dentro da porra do cachorro. Eu pedi pra ver. Era da sua marca. Do seu fedor.
- Amor, o vício é mesmo uma coisa triste.
- Sei.
- Relaxa, gata. Apenas continue dirigindo, a brisa está uma delícia.
- Pra quem não queria ir, até que você está com uma cara ótima.
- Gostei do Dingo.
- Sério ?
- Muito sério.
Eu deveria estar mesmo com uma cara ótima. O bolso de trás da calça melhor ainda. O cheque de Rodrigo Alcantâra de Menezes. O Dingo. A letra tremida um pouco, mas eu ajudara com um apoio. Assinou me chamando de "filho" e chorando. Eu agradeço a quantidade de zeros, Dingo. Só espero não chorar no final. E se chorar também ? Alguém tem alguma coisa com isso ? Pois então, fodam-se.
°

sábado, 24 de novembro de 2007

A Noite da Tertúlia.


Imagens próprias, imagens alheias, o espelho esfumaçado, cheiro de sabonete, papel higiênico respingado. Enquanto em algum lugar, do outro lado do telefone faringe inflamada ( cigarro filtro branco), você lambe restos de sol, eu não posso evitar as junções: o sabonete limpa, o corpo suja.
De noite não, ah de noite não.
Rendinhas: vou com os dentes.
De noite não: teu corpo é teu papo de alma e o que se torna palpável é porção de mágica, mas vem cá, enfia a língua entre meus dedos, no vão dos prédios ( dormem ? amam ? amarram cordas no chuveiro ?), no vão entre meus dentes. Na sombra atrás da banca de jornal, sou cancioneiro gitano, como Lorca, mas sem ter a rigidez regida: os astros estão brilhando na ponta de seus pêlos e apenas aí, movimento de marés, arrebentação quente.
Na noite sim, umidifica.
O mais palpável é um abraço troncho que te dou e nos leva ao chão, escoriações e arranhões anônimos, risos: renomear o corpo, caos vocabular de anatomia, neologismos inaudíveis para táxis que por muito não nos atropelam ( "i have money", você tem tatuado ironicamente, globalização de varas verdes nesses arredores sertanejos, bem ali, no pinga-pinga, pisca, da pelve), a cabeça agora se chama "coroa", os pés ( ah, os pés, chinelinho que te escapa, mordido pelo bueiro, jacaré autômato e sacana) se chamam "obra por vir de língua".
E me diz no vão dos fios ao céu pendentes, me diz amorico, levantar pra que?
Fazer aos olhos do deserto noturno ( passa sim alguém, um gavião negro de olhos empedrados e fascinantes) a falcatrua de que não somos tronchos ? Que não reinventamos descaradamente o nome de tudo que nos interessa e só a nós nos interessamos por nós?
O mundo é uma cama.
De noite, bem de noite, eu sei, você insinua saber, com esse umidificar palpável que acelera fantasias prenhes na velocidade além da pobre, vaidosinha coitada, luz. Afinal, é de noite.
Rendinhas no meu estômago, o cheiro do sabonete tesão agora, liga os olhos do gavião que se faz metrô adormecido, lâmpadas esquecidas, meio assim como obra de arte: luminosidade que ninguém vê, fora a mão burocrática de chave que ainda, bem ali, naquele prédio que ronca trovões no para-raios, dorme o responsável por aqueles que acham alguma utilidade em se levantar.
Não, deixa lá o chinelinho, entrega o outro para a escada, que hora dessas, só desce, infinitamente, só desce capacetes de anjos decapitados, entre galhos inicialmente tímidos, que logo, escute o som gralhar, se tornam mata densa, irretocável: a descoberta de um continente, dois dedos no sexo.
Chinelinho alimento de bicharada.
E meu
entrar aqui em você é alimento ( noite arranhada, disco vinil),
para dois bichos que ao invés de fisiologia factual,
sabem das duas únicas coisas naturais:
fantasia e memória, assim se respira, assim...
°

domingo, 19 de agosto de 2007

Os Adúlteros.


Entra, senta, quer ouvir um som, tomar um café, ainda é cedo pra uma cerveja, beber agora te lembra a culpa de estar aqui ?
Seguro você pelas pernas, quase cai, grita mesmo, levanto e te colo na parede, só entende o que acontece quando com a língua puxo de lado a calcinha e vou lambendo de boca inteira, rosto: com um dedo, você me ajuda.
Cheiro e gosto de quem se preparou pra isso. Quero molhar até tirar restos de sabonete e intimidades de farmácia. Agarra meu cabelo onde nascem e minha nuca, tua unha, sangra. Xingo tua mãe, teu pai, teu marido e te jogo no sofá, levanto tua bunda e meto. Você goza em alguns segundos e me diz que pare, que quer conversar, que talvez posso descartar a imagem das responsabilidades, caso bata um papo. Bato sim, bato uma, três, várias vezes e você goza de novo quando puxo tua cabeleira.
Saio correndo e esporro pela janela do apartamento. Lá embaixo, o ponto de táxi, a padaria, o sebo de livros.
Pego duas cervejas. Bebo a minha e depois bebo a sua, antes que esquente: você abraça os joelhos e finge dormir.
- Não é cedo para você estar bebendo ? Eu deveria mesmo estar aqui? E o tempo para pensar em todos prós e contras ?
- Você está sentada em cima do maço de cigarros. Passa aqui, por favor.
- Toma. Pega uma bem gelada pra mim. Tem uísque ?
No banho, como você por trás. Lambe o azulejo, cerâmica insuflada. Temperatura de arrepio e descamação da pele.
°
Telefona e parece que no escritório as pessoas acreditam na história. Eu não tenho para quem telefonar. Faço a barba e você corre pra me abraçar.
- Coloca um som bem legal ? Agitado. Quero dançar! Como estou feliz, amor...
°
O dia está ensolarado e nós de mãos dadas, você balança nossos braços e conta mil coisas sobre umas conquistas, um curso de alemão, e a tese de doutorado. E como sempre gostou de ler minhas coisas.
- O que é sempre ?
- Seu chato ! Me compra um pão de queijo!
Rimos juntos e a criançada chuta bola no muro do cemitério municipal. Parece que nada pode andar para trás, imagino seus pés escorregando no suor da sandália e tenho outra ereção. Mas ali estão seus pés e eu não preciso imaginar porra alguma. Me ajoelho na calçada e beijo cada um dos seus dedos, acaricio as panturrilhas e elas são caules sagrados. A criançada ri. Eu rolo no chão e finjo uma convulsão. Você manda beijos para todos que passam. Ônibus buzina, a tia da banca de jornal bate palmas. E mais que tudo, preciso caçar um pão de queijo em algum lugar que te mereça.
°
Vamos viajar. Vamos comprar um gato. Vamos nadar no mar.
Vamos correr no parque. Vamos cair com tudo no gramado. Vamos rolar ladeira.
Te faço barriga, te faço um livro novo.
Me faz um sorriso teu.
E me diz onde compramos parênteses para colocar no tempo.
Dentro da lanchonete está escuro. Você engole coca-cola. Eu engulo a seco.
°

- Você está legal, amoreco ?
- Vamos voltar pro apartamento.
- Tarado !
- Linda...desde a lanchonete. Já demos volta no quarteirão de cima, vimos as vitrines e comprei essa rosa...
- Maravilhosa.
- Tem um cara seguindo a gente.
- Puta que o pariu. Não brinca.
Você começa a olhar para trás. Belisco seu braço.
- Faz o que eu mandar.
°

O andar está escuro. Apenas a luz vermelha do interruptor. O elevador vem contando os número na parede. E chega. O tipo: alto, blusão imitando couro e manca um pouco da perna direita. Antes que ele possa acender a luz, é nela que eu pulo, colocando meu peso contra o joelho. Um grito e caímos no chão. O elevador desce e tudo escurece. Alguém ouviu o merda berrando. Segura minha garganta e além dos dedos, tem algo frio. Uma lâmina. Chuto com força o joelho, estamos escorregando no piso liso. Ele sente a dor, mas não desiste de aproximar o canivete da minha cara. O motor de elevador treme, zumbe. Preciso soltar um dos braços pra fazer apenas uma coisa e tem que ser rápido. Ele corta uma tira da minha orelha antes que eu arrebente sua cabeça contra a porta de incêndio. Após três pancadas, ele pára de respirar. O elevador ficou parado três andares abaixo.
Toco a campainha e você abre imediatamente. Ao contrário do que eu esperava, você não grita. Me ajuda a carregar o corpo.
Limpa o sangue e os ossos lá fora, enquanto eu ajeito o sujeito no banheiro da empregada.
°
- Meu marido sabe.
- Ele desconfia. Só isso. O que ele tinha pra saber morreu com esse cara.
- Não posso voltar. Ele me mata...
- Você deve voltar. E chegar sorrindo. E trepar com ele.
Parece que ela não pensou duas vezes antes de aceitar a idéia.
- Vou. Mas e você. E o corpo desse filho-da-puta ?
- Isso é comigo.
- Jura ?
- Claro.
- Ai, meu Deus.
- Vai amor, eu te ligo.
- Você vai se livrar, né ?
- Tenho alguns amigos. Espero até a noite. De madrugada não tem porteito. Tiramos ele daqui e levamos pro lixão. Fim de papo.
- É bom eu ir rápido, cê não acha ?
- Acho. Vai.
- Te amo até o fim do mundo.
- Eu sei.
- Vamos nos ver de novo ?
- Com certeza.
°
Dou meia hora depois que ela saiu. Estou com o celular do morto ao meu lado. Na casa dela, eu sei bem, tem identificador de chamadas. Mato-grossenses cornos e com grana.
A carteira de identidade: Macavú- Pernambuco.
Isso me dá um sotaque.
Poupo palavras para dizer que ela está limpa. Teve um almoço de negócios com o pessoal de um escritório, na praça de alimentação do shooping.
"O som tá alto, Casimiro..."
"Tô na rua."
"Tem certeza de tudo ?"
"Segui até o aereporto..."
"Obrigado, Casimiro."
"De nada, é meu serviço."
"Você está estranho...não sente saudades de mim?"
Fodeu.
Lascou.
"Sinto...claro, sinto demais sua falta..."
"Você entende que não era ciúmes dela, não entende? É honra. Honra, meu cavalo. Você ainda é meu cavalo gostoso, Casimiro?"
" Sempre."
"Volta. Vamos passar o fim de semana na fazenda? Quero você me fodendo."
"Quero comer mesmo esse rabo."
"Assim que se fala...cavalo..."
"Me espera na fazenda já? Me deu tesão arretado essa história toda."
"Safado. Puto. Vou dispensar o pessoal do casarão."
A passagem, a passagem....aqui.
"Chego de noite."
"Te espero de banho tomado, vem que teu urso tá querendo."
°
Enquanto remexia nas roupas de Casimiro, encontrei tudo que precisava. Eu já tinha visitado aquela fazenda duas vezes. Foi na carteira que eu encontrei uma foto.
Uma foto dela.
E uma carta escrita em folha de caderno. Eu conhecia bem aquela letra.
E aquele jeito bem puta de escrever.
Ela dizia que o pau de Casimiro era o maior que já havia chupado.
Que ela adorava quando ele esporrava na cara, nas tetas.
Que fora o corno, só tinha ele.
°
Minha cabeça latejava enquanto eu arrumava uma mala pequena. Poucas coisas. Eu não tinha motivo pra demorar lá no Mato Grosso.
Descobri que sou rápido para acertar algumas coisas.
Pedi pra aeromoça um comprimido pra dor e uma cerveja.
Dormi sorrindo, com uma sensação gostosa esquentando o peito.
Algo como um sentido real pra vida.
Ou a alegria do desprezo.
°







quarta-feira, 1 de agosto de 2007

O melhor casal do mundo.



"Quando os demiurgos cahuilla emergiram das trevas e quiseram dissipá-las, ambos começaram por extrair do próprio coração um cachimbo e um tabaco cuja fumaça expulsaria a escuridão reinante."

("A oleira ciumenta",Claude Lévi-Strauss)



- Antes que saia, você sabe que eu te amo, né ?
- Assim eu volto.
- Não deixaria de ir por tão pouco.
- Posso fingir que a gente não entrou nessa apenas pela ironia.
- Simular uma negativa é dizer algum tipo de verdade que eu não consigo escutar.
- Vou só trancar a porta, e telefonar pro síndico na praia.
- O que a gente vai ficar fazendo aqui ?
- Você sabe como funciona essa hora. Qualquer coisa que eu falar não será feita por pura birra.
- De ambos, que fique claro.
- Posso fumar aqui ?
- Está frio e eu não vou abrir a janela de madrugada.
- Obrigado, passe o isqueiro.
- Vem pegar.
- "Vem pegar" sempre termina em sexo.
- Você disse a palavra, a gente não vai fazer.
- Como as coisas ficaram tão complicadas ?
- Você já imaginou a quantidade de conversas que estão inscritas dentro da gente ? Foi-se o tempo em que o decálogo resolvia tudo.
- Eu deixo de dizer o que quero para que você adivinhe, mas você se nega a adivinhar pra que eu me sinta menos óbvia, e isso melhora minha auto-estima, o que me dá coragem de dizer o que eu quero.
- E na hora que você toma coragem, eu decido ir embora.
- E apenas quando você gira as costas, gira a chave, abre a porta, abre o mundo, eu tenho coragem de dizer que eu te amo.
- Agora você me ama ?
- Não.
- Nem eu te amo.
- Amar tem um ranço que acaba matando o amor. Amar tem umas velas, umas bençãos, umas pizzas, uns projetos para as férias, umas enumerações cansativas, bem como o entardecer silencioso, que vai caindo sem que com isso tenha a força necessária pra desviar o curso da luz sobre as palavras na ponta da língua, mas elas não despencam nunca, elas nunca decidem por se espatifarem sobre o jardim, elas...
- Você não consegue ficar quieta ?
- Não. E você ?
- Consigo.
- Então fique.
- Fico se eu quiser.
- Eu fico mil vezes mil.
- Eu fico mil vezes infinito.
- Eu fico infinito vezes infinito.
- O que quer uma mulher ?
- Freud.
- Pense em alguma solução trágica para nós. Posso mesmo sair por essa porta e ir comprar uma arma.
- Eu gostaria muito, mas na hora que você virasse as costas, me assustasse com o prenúncio da ausência, abrisse a porta...
- Você diria que me ama.
- E você iria acreditar, afinal, nós dois sabemos muito bem como é encarar o mundo lá fora.
- Taí. E se nós dois saíssemos? Fechamos tudo, arrumamos as malas, dividimos o dinheiro, e cada um vai pro seu lado, rodoviária, aeroporto, a motoneta a gente tira no par ou ímpar.
- Enquanto um arruma a mala...como seria a solidão do outro que espera, vários uísques com Miles Davis na sala ?
- Arrumamos ao mesmo tempo.
- O nosso armário não é tão grande.
- Nem mesmo o quarto, não caberia eu, você e o terror.
- Concordamos em algo, afinal.
- Alguma coisa deve estar errada.
- Não, é isso mesmo. Lembra ? A gente sempre concorda com os pontos que não trazem solução alguma.
- É verdade. Agora mesmo. Nessa última concordância. Somos capazes de criar tratados, epopéias, sinfonias que versassem sobre os temas mais inúteis, como a tarde que vai caindo em silêncio, sem jogar alguma água sobre esse teu cigarro que se segue a outro e mais outro até que precisemos inventar de ir ao cinema, ver amigos, marcar uma reuniãozinha, encarar barzinho depois quem sabe pegar estrada para a praia.
- Quem sabe não. A gente sempre pega estrada para a praia. Compramos o apartamento lá para pegarmos inevitavelmente a maldita estrada para a praia.
- Nem sempre.
- Pronto. Taí. Você quer ir pra praia.
- Não quero.
- Negar que quer ir é querer ir.
- Você insiste tanto nessa que estou achando que quem quer ir pro barzinho e depois encarar a serra é você.
- E que tal se nós dois saíssemos pra juntos comprarmos a arma ?
- Você não entende nada de armas.
- Quem foi que disse ? Antes de te conhecer eu era muito crazy.
- Eu entendo tudo de armas.
- Eu andava com uma turma super pirada, sem limites, a gente ouvia música, fazia orgia e todo fim de semana...
- ...Vocês iam para a praia.
- Algumas vezes a gente não ia. Você não sabe.
- Desde quando a gente se vê lá no mar ? E aquela foto em preto e branco nossa, na estante dos vinis ?
- Isso não tem nada a ver, você não sabe se a gente se via mesmo todo fim de semana, é impossível fazer esse cálculo.
- O problema é que a sua turma era também a minha turma.
- Como eles, os outros, se chamavam mesmo ?
- Não vou dizer isso.
- Eu digo.
- Eu te mato. A gente combinou. A gente disse aceito, aceito, amém, amém. Purificação do segredinho. Te mato !
- Mata nada.
- Porra, se mato...cala essa boca escrota, seu merda !
- Porque você acha que todos nossos filhos não vingaram ? Porque a caixa de gordura está entupida de tantos fetos ?
- Pára ! Não tô ouvindo nha nha nhu nhu nha nha não tô ouvindo !
- Não paro. E você tá ouvindo sim !
- Você é doente.
- Nós dois temos a cicatriz na barriga. Olha a sua, olha a sua, lá lá lá ! Eu vi ! Ninguém mais viu !
- Bobo ! Bobão !
- Feia ! Coiseira !
- Seu ...seu...mesa !
- Sua xixi de urubu !
- Vou chamar a mamãe, droga!
- Vou chamar o papai! E mais a vovó ! Eu vou, eu vou !
-...
-...
-...
-...
- Voltou ?
- Voltei.
- Você está bem ?
- Acho que sim.
- Não lembra de mais nada também ?
- Nem uma gota de memória.
- Estou leve pra caramba. O que é esse branco ?
- Não faço idéia. Só sei que é bom. Vou lavar o carro pra gente pegar estrada. Vai fazer um fim de semana lindo, vi na internet. Barzinho antes ?
- Antes. Ah, e antes de você sair...quero dizer que te amo.
- Desse jeito eu fico.
- Fica nada...
º

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Eu Pendendo Você: Caio em nós - ( ou Psico-Cigar )


(Foto: Paulo Castro )
Saudades mentirinha de quando o barco( musgo na alma ? Só rindo...) pendia pra algum lado. Agora existe uma calmaria de miséria( os marinheiros pescam fantasias sob a forma de pedaços humanos plastificados), sobrando ao plural capitão pular no mar com a boca cheia de areia, espermartozóides e óvulos, nadar sem mastigar, sem deglutir, cantando uma canção apenas na mente. Mentirinha.
De forma que preciso aqui no navio de doadores e fornecedoras. Não precisam correr, já afundou, já chegamos no pé, agora é uma questão de querer ou não que a barcaça crie raízes e que com isso, constituamos em um futuro impreciso, algo que já se sabe falho: uma sociedade, alguma comunidade, férias com máquina fotográfica, horário para acordar, em que o breakbeast substitui o despertador de trabalho, convenhamos afinal: Proponho uma anti-Arca de Noé.
°
A fantasia é entendida pelo matema:
$ <> a
Onde $ é o sujeito barrado e "a" é o objeto perdido.
Sujeito barrado de que? Essa é fácil: pelo próprio princípio próprio que permite chamar alguém de "sujeito" e que entendamos do que se trata. Sem entender porra nenhuma, na verdade. Barrado pela linguagem. Que se permite o fato de um papo com café na padaria poder acontecer, permite também que a gente se saiba como limitado, nunca o sonho. Ou você acha que sonha apenas quando está dormindo, quando deixa de ser, por que ?
E que objeto perdido, cara pálida ?
Um dia você teve fome e deu que chorou. Pela primeira vez. E sua mãe te faz uma surpresona. Aparece com aquele tetão magnético. A coisa é tão boa que você pensa: Toda vez que eu chorar, vai aparecer algo assim, tão bom ?
E chora de novo.
Mas o que volta é o tetão. Só que você não quer ele. Você quer outra coisa: a surpresa, o gozo dessa novidade. Mas o mundo só te oferece tetão. Ou coisas que sejam substitutas de tetão( clássicos dos Rolling Stones, chocolate, coisas do tipo ). Mas nada mais que tenha tamanho impacto de surpresa satisfatória. O Objeto "a" é essa coisa que você não esperava e veio, e que depois que veio, nunca mais nada virá causar o mesmo. Lacan não disse, mas disso tudo, como podemos deduzir, decorre que após a sucção inicial, só nos resta o tédio e uns balões a cada aniversário. E presente de dia das crianças até sair da casa dos pais. Que pais ?
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Tem um pedaço de fogo na minha garganta. Bem cortado, dimensionado, medido. Ele não queima como poderia queimar, mas é tudo que tenho. É também o que me cala, ouvindo as pessoas, sem nada mais a acrescentar.
Tem um pedaço de pessoas dentro da minha cabeça.
Tenho medo de levar o fogo para cima e me tornar um assassino. Tenho pavor de trazer as pessoas para baixo e acabar engolindo o pouco de chama que me foi aventado.
Por isso que não sei o que dizer, por isso que também não te beijo.
Você entende ?
É minha, de toda gente, natureza de perpétuo ovo de dragão.
°
O sujeito barrado, o sujeito que fala, escreve, pensa com imagens e palavras, está em constante relação com o tal objeto perdido. Essa relação que se chama fantasia. Mas olha só: a relação sugere o que ? Que uma coisa nunca vá se tornar outra, ou a equação some. A fantasia some. E se a fantasia não some é porque, novamente Stones, não existe satisfação.
Nunca haverá mais. Só houve uma vez. Melhor seria se nunca tivesse ocorrido, então a palavra "esperança" não existiria, simples assim. Grande sacanagem aquela primeira mamada. Enorme trairagem da natureza. Mas se não tívessemos mamado, estaríamos mortos. Pois é. Aí que começo a rir até meus bagos virarem vaga-lumes: A vida viva é uma tremenda escrotidão. No dia em que inventarem a retirada desse câncer chamado fantasia, sou o zerinho na pesquisa.
Mas sobra outra questão: se há um relacionamento entre $ e "a", isso ocorre pois é possível transitar de $ até "a", o que podemos entender, mas também...de "a" até $.
°
Coceira em todo lugar eu já vi. Menos essa até agora, como me dar um nome depois de agora, sempre ?
Há duas semanas a parede do meu quarto começou a coçar.
Acordei com sede e não era líquido que matava, acordei suado e estava frio em todo canto, acordei ao lado de uma mulher que nunca conheci e ela disse "que foi, meu grande amor?".
Comi a sede, queimei o suor e a pele, à mulher eu disse que a queria para todo sempre véu e amém, mas apenas se ela se submetesse a alguns meus caprichos particulares. Fugiu pela janela do apartamento, sem olhar para a frente.
E não era nada disso.
Vi a parede e ela coçava em mim.
Branca, o concreto aparecendo pela rachadura em forma de mapa-mundi por descobrir, era naquele rasgo que eu coçava-me outro. Prurido que não era dentro, que não era fora.
Era no espaço entre eu e a parede. Branca e fixa, pois é.
Minha avó falava antes de perder os dentes: "Comer e coçar é só começar".
Prurido coisa boa: quanto mais eu enfiava as unhas na parede, mais a coisa ficava êxtase por fração de mínimo, de um bom ótimo além tanto tanto que vai pra lá da palavra e vive em um abismo entre meu umbigo e o primeiro átomo que deve existir logo após a parede, o primeiro pedaço de ar, a primeira instância da amputação do espaço que reconheço como meu, como eu, imagino. Que mundo explosão sem esforço.
Sim, eu tentei. Saí correndo, tomei o elevador, peguei a rua, saltos na corrida. Mas. Mas sei lá o quão longe, o bastante para que, fora da minha vista, dos meus dedos, da minha língua lambida nos inocentes cupins, paradoxo em cada olho chorando, eu sentisse a parede do apartamento me enlouquecendo de coceira lá nela e apenas nela em mim. Vomitei nos estrados das ruas e carros acamados de tanta movimentação, e minha última janta tinha o gosto que teria a palavra que falta aos amores todos antes do começo. Voltei deliciosamente, ou seja: em um misto de angústia e certeza de satisfação.
Cavei o buracio na parede, no tempo em que estava livre de atender campainha, telefone, e-mails demandosos. Me encaxei nele, não sou pequeno, o tamanho fiz exato, sem o saber, no entanto. Nem aquele átomo exultante de sobra e falta. Não tenho mais como despencar para dentro ou tropeçar para fora. Estou preso. A bomba amarrada às minhas coxas vai explodir em três minutos. Com os dentes gemidos ares, trago os ponteiros do relógio anexado sempre ao três minutos. Toda vez que faltam apenas três segundos.
"A vida, saiba, precisa de um sentido para se viver". Como diria minha mãe, enterrando os dentes da avó na quente terra ao sol, lá do quintal confortável que não mais existe em nenhuma memória, nem jamais existiu.
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Baudrillard vai fornecer a melhor interpretação dessa rota de fuga, do objeto "a" até o sujeito barrado. Não sei se Baudrillard sabe disso, mas eu sei. Quando ele diz que os objetos se vingam, finalmente de nós. Apenas acho que ele deixa algo atemporal como sendo contemporâneo. A vingança do objeto sempre existiu. Vejamos a lei da ação-reação, mas sem ingenuidade. Batemos em um objeto e ele devolve a pancada. Mas o que nos fez escolher aquele objeto para nosso soco ? Apenas a proximidade ? Não sabemos a razão.
Não saber é que algo escapa da nossa capacidade de significar.
O que escapa ? O que não pode ser dito, o que é a materialidade da linguagem. Lacan chama também o objeto "a" de "materialidade da linguagem", ou letra.
Isso mesmo: achamos que escolhemos, mas quem nos escolhe, de uma forma misteriosa, ancestral, visceral na coisa, é o objeto.
Quando o objeto nos ataca ( $ <-- a ), somos nós os objetos: somos o absurdo. O vácuo sem fim de um objeto besta atacando e sendo atacado por outros objetos ridículos para todo sempre, geração a geração.
A análise calma da equação fantasiosa nos prova, assim: Não existe essa ficção chamada sujeito. Não existe eu.
Não existe você.
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Ops...o barco está afundando em direção ao céu. Alguém me passe apenas o filtro molhado de um cigarro ?
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"Esta linguagem é pura. No meio está uma fogueira
e a eternidade das mãos
Esta linguagem é colocada e extrema e cobre, com suas
lâmpadas, todas as coisas.
As coisas que são uma só no plural dos nomes".
(Herberto Helder)
°

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Listinha Pela Não Edificação.


Muito bem. Fiquei sabendo há pouco sobre umas listinhas que estão acontecendo por aí, ( aí = mundo dos insinuantes e petulantes blogs literários, entre os quais introduzo o meu com ou sem trocadilhos) um jogo de montar listas dos livros que mais colocaram fogo nas cabeças dos escritores. Cinco livros, cinco escritores por blog. Isso mesmo, a idéia é a mesma da corrente, quebrou cai um dente.
Aqui, nesse jogo, não sei o que acontece no caso de quebra. O escritor nunca mais vai conseguir publicar um livro? Pode ser. O que em um bom número de casos, seria uma benção dos céus. Mas como quem escreve está meio que pouco se fudendo pros céus, eu me vejo diante de uma grande indiferença quanto às regras: Quais os meus 5 livros prediletos, canônicos ( Sacaneei, Harold Bloom !) , de toda minha inútil vida ?
O escritor, antes de mais nada, tem duas profissões no mínimo: a primeira delas é ser obrigatoriamente um leitor. Não existe escritor que se preze que não leia. E ler é verbo amplo, passeia pelos clássicos ( mesmo se for para se engessar um pouco, conter ímpetos) e pelos contemporâneos ( mesmo que seja para dar uma rebolada tediosa em algum boteco da Vila Madalena), e faz de tudo para transformar contemporâneos em clássicos.
Dessa forma, como eleger apenas cinco ? Método : jogando pra cima. Pode ser. Eu peguei alguns que penso contribuir para quem vem aqui. Livros essencias, que eu me sinto a ala vontè para resenhar, e cuja leitura tenha uma boa dose de prazer, mais que de obrigação. Nem todos aqui são escritores, nem todos são obrigados a ler o que nós somos.
Resenhar no jogo que apresento, por convite-maldição de JEAN CANESQUI (http://aoficinadodiabo.blogspot.com), que por sua vez foi forçado por ALEXANDRE HEREDIA, significa brincar com os textos. Não estou escrevendo para Veja. Nem para a EntreLivros, que meus netos me perdoem pelaquela triste vez. Vou falar o que bem entendo sobre os cinco escolhidos a dedo com esmo. Do jeito que eu quiser. Com o tesão que me deram, nos aspectos que me gritaram em ressonância com meu espelho.
A gente se espelha. Autores, outras histórias, mitos, lendas, maneiras de se relacionar e de morrer. As grandes histórias já foram contadas e não são muitas, na verdade, menos que cinco. Bem menos. O resto é variação, simulacro, alegoria e alguma safadeza mais ou menos esperta.
Os meus 5 livros estão fotografados por mim, aí acima, sobre um cobertor. Hoje chove aqui e faz frio. É para esse ambiente de calor que quero trazer essas histórias( optei apenas por romances, já que não vi, nos outros dois caras, ensaio, poesia, filosofia, física quântica ou atlas geográfico...não sou eu que vou quebrar muitas regras de tão literata corrente), essas frases, essas letras e quem por ventura pintar aqui durante o tempo de permanência do atual post. Aconchego, paixão por esses autores. E pelos leitores que venham a se apaixonar também por eles.
No fim da minha lista ( chamada no jogo de Meme) invocarei o nome de 5 escritores que tenham blog, para continuarem o Big Brother Acadêmico Diletante. Confiram, sigam, acompanhem. Obviamente, vou privilegiar amigos. Quero cuidar bem dos meus livros: que tenham boa vizinhança é o mínimo pelo que posso lutar.
Ok. Vamos aos atores principais e seus atos:
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1) Um Copo de Cólera - Raduan Nassar.
Raduan foi um grande escritor, apesar de ainda estar vivo. Uma personagem minha ganhou seu nome. Ele não é mais um escritor. Parou com tudo e virou Rimbaud bucólico. É o único autor brasileiro da minha lista, o que deve servir para mostrar o grau de meu otimismo ufânico. "O Copo" é seu livro mais fininho. Quase escolar de férias. Mas é um impacto sobre a maneira como até então foi descrita relação amorosa. Homem e Mulher. Uma chácara. Sozinhos por dias. Eles se amam, eles sentem tesão um no outro. E muita, mas muita raiva. A raiva que só o amor faz suportar para esquentar o ventre. Raduan descreve de forma a causar asma satírica no leitor. Falta ar, chia o peito e ainda endurece a pica. Teve o filme do mesmo nome, fez um certo furor: o casalzinho lá parece que trepa mesmo na frente da lente. Mas que nada, sai da minha frente que eu quero passar e ficar bem bêbado infinitas leituras com o copo de cólera. Ou seja, nunca mais me apaixonei do mesmo jeito. Quem viveu sabe e a delagacia da mulher também.
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2) Trópico de Capricórnio - Henry Miller.
Falar de um livro de Henry Miller é falar de todos dele. O único autor em que eu perdoei a mesmice. Ele é o si mesmo de cada linha. Que porra de eu-lírico o cacete. Que meio história autobiográfica, se melhorando nos azeites. Ele não: fazia questão de se piorar. O que não pensem os incautos, fazia dele um imoral. O homem que se condena em público é o mais moralista de todos. Um dia, pra quem não entendeu, eu explico. Tanto faz se de Capricórnio, Câncer, Sexus, Plexus, Nexus, Primavera Negra, tudo a mesma merda maravilhosa. O escritor que não desiste de ser ele mesmo. E de ser escritor. De amar as mulheres. Magoar as mesmas. Subir aos céus com os amigos ( Miller, como disse Érica Jung, antes de um pornógrafo, é um místico). E trair, na próxima página, os mesmos amigos. Como, sendo tão inseto, o humano é ainda o maior barato que existe ? Miller prova. Eu tive problemas com a bebida na época em que o li. Eu achei que vivia entre Paris e Nova York. Eu mandei minha mulher mudar de nome. Eu mudei de nome. Eu recomendo essa danação.
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3) Almoço Nu - William Burroughs.
Muitos erram sobre Burroghs e sobre a "Geração Beat". Foram autores muito diferentes entre si, com livros muito heterogêneos no mesmo autor. Mas talvez "Naked Lunch" seja o único imortal. E isso não é pouco. Raros livros escapam de uma tarja, de uma etiqueta, rótulo como vocês dizem. Burroughs escapou. E olha aqui, não há um escritor de hoje que não cobie em alguma muita coisa esse sacana. Mesmo que nunca tenha lido o mais infernal dos almoços. William, após matar a sua mulher acidentalmente ( ? - uma brincadeira [ ??? ] de Guillherme Tell com uma automática) escreveu isso aí. Drogas, barra pesada, homossexualismo, criação literária, espionagem, poesia, jazz, viagem para Tânger, surrealismo único, etc e mais alguns etcs. Como coube isso tudo em único livro e mesmo assim, manteve a pegada, se fez paradigma literário ? Pois é. Como diz a EmeTeVê, é por isso que "Almoço Nu" ocupa a nossa sei lá que posição. Para quem tá sem saco de ler, vale tanto quanto o filme baseado na obra, do David Cronemberg. Quem for esperto, injeta o livro e dá o bunda pro filme. Gozão.
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4) Viagem Ao Fim Da Noite - Louis Ferdinand Cèline.
O melhor escritor de língua francesa de todos os tempos e acabou. Fim de papo. Quem ? Proust ? Mallarmè ? Baudelaire ? Que nada. Cèline. E esse é o seu melhor livro. O que pegou que ninguém conhece o sujeito. Ueba, essa parte é boa. Ele foi o maior escritor anti-semita da história do nazismo. Sim, os próprios nazistas ficavam assustados com seus panfletos contra os judeus. Isso me soa engraçado. Os próprios nazistas. Se para você soa assustador, relax. No "Viagem" não há essa pregação. É literatura em sua máxima potência. Um homem que do nada ( mesmo, sem chances ao psicologismo) resolve virar soldado e ir pra guerra, nesse caso, a Primeira, sem acreditar em porra nenhuma. Não é um romance histórico, nem fudendo. É menos histórico que A Divina Comédia, só que Cèline escrevia bem melhor que o Dante. Corrosão, sobrevivência e colhões de aço. É com ele mesmo.
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5) 120 Dias de Sodoma - Marquês de Sade.
Todos acima são filhos desse livro. Aliás, todos nós, homens, mulheres, bestas, bancários, menopausadas, escrotos, psicanalistas, enfim, a corja humana toda é filha de Sade. Um livro que se passa em 120 dias. E pra que tanto ? "Ulisses" de James Joyce é apenas um dia e por isso mesmo é genial ! Tá, ok. Mas Joyce não seria capaz de enumerar, profetizar, literalmente mesmo esporrar, cagar, mijar, assassinar em cima de cada uma das todas taras humanas. Pensei em todas que já cometi, as que tenho vontade, as que tenho nojo, as que nunca pensei até então. Pois é. Estão todas lá. Quando o Marquês escreveu a história de nossos "heróis" libertinos, estava preso na então Bastilha. Na confusão revolucionaria e punitiva, achou que o livro tivesse sido perdido para sempre. E assim, todos os seus livros seguintes foram reflexos melancólicos de "120". Mas não se perderam. Foram bem escondidinhos. Livro mais maldito nunca houve e nunca haverá. Por isso sumiu. Na ascendência do modernismo europeu, uns doidos fizeram a coisa vir à tona. Ninguém mais sobre a Terra, mesmo que não leia, poderá ser salvo. Que bom. Mais divertido assim.
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Isso aí.
Agora, vamos as nomes dos próximos no joguinho.
Deixe-me escolher...
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ESCOLHIDOS ( Favor segui-lôs, são ótimos para o fim proposto) :
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Carol Custódio : http://naselva.com/carol
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