sábado, 24 de novembro de 2007

A Noite da Tertúlia.


Imagens próprias, imagens alheias, o espelho esfumaçado, cheiro de sabonete, papel higiênico respingado. Enquanto em algum lugar, do outro lado do telefone faringe inflamada ( cigarro filtro branco), você lambe restos de sol, eu não posso evitar as junções: o sabonete limpa, o corpo suja.
De noite não, ah de noite não.
Rendinhas: vou com os dentes.
De noite não: teu corpo é teu papo de alma e o que se torna palpável é porção de mágica, mas vem cá, enfia a língua entre meus dedos, no vão dos prédios ( dormem ? amam ? amarram cordas no chuveiro ?), no vão entre meus dentes. Na sombra atrás da banca de jornal, sou cancioneiro gitano, como Lorca, mas sem ter a rigidez regida: os astros estão brilhando na ponta de seus pêlos e apenas aí, movimento de marés, arrebentação quente.
Na noite sim, umidifica.
O mais palpável é um abraço troncho que te dou e nos leva ao chão, escoriações e arranhões anônimos, risos: renomear o corpo, caos vocabular de anatomia, neologismos inaudíveis para táxis que por muito não nos atropelam ( "i have money", você tem tatuado ironicamente, globalização de varas verdes nesses arredores sertanejos, bem ali, no pinga-pinga, pisca, da pelve), a cabeça agora se chama "coroa", os pés ( ah, os pés, chinelinho que te escapa, mordido pelo bueiro, jacaré autômato e sacana) se chamam "obra por vir de língua".
E me diz no vão dos fios ao céu pendentes, me diz amorico, levantar pra que?
Fazer aos olhos do deserto noturno ( passa sim alguém, um gavião negro de olhos empedrados e fascinantes) a falcatrua de que não somos tronchos ? Que não reinventamos descaradamente o nome de tudo que nos interessa e só a nós nos interessamos por nós?
O mundo é uma cama.
De noite, bem de noite, eu sei, você insinua saber, com esse umidificar palpável que acelera fantasias prenhes na velocidade além da pobre, vaidosinha coitada, luz. Afinal, é de noite.
Rendinhas no meu estômago, o cheiro do sabonete tesão agora, liga os olhos do gavião que se faz metrô adormecido, lâmpadas esquecidas, meio assim como obra de arte: luminosidade que ninguém vê, fora a mão burocrática de chave que ainda, bem ali, naquele prédio que ronca trovões no para-raios, dorme o responsável por aqueles que acham alguma utilidade em se levantar.
Não, deixa lá o chinelinho, entrega o outro para a escada, que hora dessas, só desce, infinitamente, só desce capacetes de anjos decapitados, entre galhos inicialmente tímidos, que logo, escute o som gralhar, se tornam mata densa, irretocável: a descoberta de um continente, dois dedos no sexo.
Chinelinho alimento de bicharada.
E meu
entrar aqui em você é alimento ( noite arranhada, disco vinil),
para dois bichos que ao invés de fisiologia factual,
sabem das duas únicas coisas naturais:
fantasia e memória, assim se respira, assim...
°

17 comentários:

SAMANTHA ABREU disse...

não sei mais onde tá meu pensamento. Enquanto leio, pareço não estar. Não estar.
"para dois bichos que ao invés de fisiologia factual,
sabem das duas únicas coisas naturais: fantasia e memória".
Eu diria que: "O que é passado é vontade de futuro. (memória)
Presente é vontade pura, o tempo todo." (Fantasia)

Você sabe como embaralhar as cartas e eu tento ficar seguindo com os olhos, pra ver em que mão tudo isso vai parar. Mas é rápido demais pra mim. Teu texto é denso, intenso. Quando me dou conta... estou no meio desse baralho.

Ah, que saudade que eu tava de te ler...
Beijos.

Andréia Muza disse...

Só quem já viajou muito pra conhecer Terra e Mar e fazer tijolos temperados tão bem com toda essa mistura...adoro...bjo

Lais Mouriê disse...

PqP.... que delícia esse conto! Lê-lo causou-me taquicardia, Paulo...

Sexo pulsante e metafórico... adorei!

Bjos

Beth disse...

Eu te uso
Tu me usas

Assim vai, nossa masturbação noturna.

Grazzi em ContRo disse...

É o que se faz quando não há menos nem mais..a Beleza.

Rogério Saraiva disse...

Fantástico.

poupéezinha disse...

Ai Poupéezinha.. guarde suas pílulas pra sí Poupée-

cássio amaral disse...

paulão,

puta texto, imagens bem elaboradas da sua oficina de sonhos. há uma poética louca e gritante no texto, há um soco no estômago, a noite é cama no gozo fatal e fenomenal que fazemos, no estandarte da sua verve que elabora o êxtase na minuto que diz vida.

muito bom texto irmão!!!!

abração.

Anônimo disse...

Muito bonito!
Uma delícia de escorregar entre as palavras e observar, um voyerismo permitido.
bjo.bjo.
Dani R.W.

Borboletas Embriagadas disse...

Poesia Perfeita. Suas palavras são tão harmônicas que a leitura do seu "conto-poema" desliza, além da minha compreensão. Tem ritmo próprio. Um deleite.


Beijo em forma de poesia*

Lívia Russo disse...

Eu agradeço muito vc ter lido o texto e ter comentado querido!
a paty já tinha me falado de vc muito e eu sempre leio aqui seus blogs mas tinha comentado apenas em alguns. Fiquei muito muito feliz de ler as suas palavras pq admiro muito vc escrevendo
:D
e quanto ao seu conto, o que é isso?
sempre perco o fôlego lendo eles...palavras imagéticas que costumam me fazer viajar.e sim:"O mundo é uma cama".
:*
:*
:*
parabéns, sempre!!
beijos
Lívia Russo

Anônimo disse...

Não escreve mais nada por aqui ??

Rafaell.

adri antunes disse...

Nossa, mto lindo!!! adorei! quando puder, venha me visitar
temporario-permanente.blogspot.com

Izabel Xarru disse...

Muito bonito. Me lembrou de: 'coloca o dedinho aqui?'.
Um beijo.

Bianca Feijó disse...

Texto lindo,sensual,erotico sem ser vulgar,leva a imaginação longe...adoro estes textos em que vc se sente um personagem dele,que faz sua imaginação fluir e que te anseia para saber o final.
Bravo!
Beijos!

Bianca Feijó disse...

Texto lindo,sensual,erotico sem ser vulgar,leva a imaginação longe...adoro estes textos em que vc se sente um personagem dele,que faz sua imaginação fluir e que te anseia para saber o final.
Bravo!
Beijos!

Preta disse...

Puxa, Paulo, assim vc judia meu querido. Tanto tempo que estou na seca.
Beijoca