quarta-feira, 1 de agosto de 2007

O melhor casal do mundo.



"Quando os demiurgos cahuilla emergiram das trevas e quiseram dissipá-las, ambos começaram por extrair do próprio coração um cachimbo e um tabaco cuja fumaça expulsaria a escuridão reinante."

("A oleira ciumenta",Claude Lévi-Strauss)



- Antes que saia, você sabe que eu te amo, né ?
- Assim eu volto.
- Não deixaria de ir por tão pouco.
- Posso fingir que a gente não entrou nessa apenas pela ironia.
- Simular uma negativa é dizer algum tipo de verdade que eu não consigo escutar.
- Vou só trancar a porta, e telefonar pro síndico na praia.
- O que a gente vai ficar fazendo aqui ?
- Você sabe como funciona essa hora. Qualquer coisa que eu falar não será feita por pura birra.
- De ambos, que fique claro.
- Posso fumar aqui ?
- Está frio e eu não vou abrir a janela de madrugada.
- Obrigado, passe o isqueiro.
- Vem pegar.
- "Vem pegar" sempre termina em sexo.
- Você disse a palavra, a gente não vai fazer.
- Como as coisas ficaram tão complicadas ?
- Você já imaginou a quantidade de conversas que estão inscritas dentro da gente ? Foi-se o tempo em que o decálogo resolvia tudo.
- Eu deixo de dizer o que quero para que você adivinhe, mas você se nega a adivinhar pra que eu me sinta menos óbvia, e isso melhora minha auto-estima, o que me dá coragem de dizer o que eu quero.
- E na hora que você toma coragem, eu decido ir embora.
- E apenas quando você gira as costas, gira a chave, abre a porta, abre o mundo, eu tenho coragem de dizer que eu te amo.
- Agora você me ama ?
- Não.
- Nem eu te amo.
- Amar tem um ranço que acaba matando o amor. Amar tem umas velas, umas bençãos, umas pizzas, uns projetos para as férias, umas enumerações cansativas, bem como o entardecer silencioso, que vai caindo sem que com isso tenha a força necessária pra desviar o curso da luz sobre as palavras na ponta da língua, mas elas não despencam nunca, elas nunca decidem por se espatifarem sobre o jardim, elas...
- Você não consegue ficar quieta ?
- Não. E você ?
- Consigo.
- Então fique.
- Fico se eu quiser.
- Eu fico mil vezes mil.
- Eu fico mil vezes infinito.
- Eu fico infinito vezes infinito.
- O que quer uma mulher ?
- Freud.
- Pense em alguma solução trágica para nós. Posso mesmo sair por essa porta e ir comprar uma arma.
- Eu gostaria muito, mas na hora que você virasse as costas, me assustasse com o prenúncio da ausência, abrisse a porta...
- Você diria que me ama.
- E você iria acreditar, afinal, nós dois sabemos muito bem como é encarar o mundo lá fora.
- Taí. E se nós dois saíssemos? Fechamos tudo, arrumamos as malas, dividimos o dinheiro, e cada um vai pro seu lado, rodoviária, aeroporto, a motoneta a gente tira no par ou ímpar.
- Enquanto um arruma a mala...como seria a solidão do outro que espera, vários uísques com Miles Davis na sala ?
- Arrumamos ao mesmo tempo.
- O nosso armário não é tão grande.
- Nem mesmo o quarto, não caberia eu, você e o terror.
- Concordamos em algo, afinal.
- Alguma coisa deve estar errada.
- Não, é isso mesmo. Lembra ? A gente sempre concorda com os pontos que não trazem solução alguma.
- É verdade. Agora mesmo. Nessa última concordância. Somos capazes de criar tratados, epopéias, sinfonias que versassem sobre os temas mais inúteis, como a tarde que vai caindo em silêncio, sem jogar alguma água sobre esse teu cigarro que se segue a outro e mais outro até que precisemos inventar de ir ao cinema, ver amigos, marcar uma reuniãozinha, encarar barzinho depois quem sabe pegar estrada para a praia.
- Quem sabe não. A gente sempre pega estrada para a praia. Compramos o apartamento lá para pegarmos inevitavelmente a maldita estrada para a praia.
- Nem sempre.
- Pronto. Taí. Você quer ir pra praia.
- Não quero.
- Negar que quer ir é querer ir.
- Você insiste tanto nessa que estou achando que quem quer ir pro barzinho e depois encarar a serra é você.
- E que tal se nós dois saíssemos pra juntos comprarmos a arma ?
- Você não entende nada de armas.
- Quem foi que disse ? Antes de te conhecer eu era muito crazy.
- Eu entendo tudo de armas.
- Eu andava com uma turma super pirada, sem limites, a gente ouvia música, fazia orgia e todo fim de semana...
- ...Vocês iam para a praia.
- Algumas vezes a gente não ia. Você não sabe.
- Desde quando a gente se vê lá no mar ? E aquela foto em preto e branco nossa, na estante dos vinis ?
- Isso não tem nada a ver, você não sabe se a gente se via mesmo todo fim de semana, é impossível fazer esse cálculo.
- O problema é que a sua turma era também a minha turma.
- Como eles, os outros, se chamavam mesmo ?
- Não vou dizer isso.
- Eu digo.
- Eu te mato. A gente combinou. A gente disse aceito, aceito, amém, amém. Purificação do segredinho. Te mato !
- Mata nada.
- Porra, se mato...cala essa boca escrota, seu merda !
- Porque você acha que todos nossos filhos não vingaram ? Porque a caixa de gordura está entupida de tantos fetos ?
- Pára ! Não tô ouvindo nha nha nhu nhu nha nha não tô ouvindo !
- Não paro. E você tá ouvindo sim !
- Você é doente.
- Nós dois temos a cicatriz na barriga. Olha a sua, olha a sua, lá lá lá ! Eu vi ! Ninguém mais viu !
- Bobo ! Bobão !
- Feia ! Coiseira !
- Seu ...seu...mesa !
- Sua xixi de urubu !
- Vou chamar a mamãe, droga!
- Vou chamar o papai! E mais a vovó ! Eu vou, eu vou !
-...
-...
-...
-...
- Voltou ?
- Voltei.
- Você está bem ?
- Acho que sim.
- Não lembra de mais nada também ?
- Nem uma gota de memória.
- Estou leve pra caramba. O que é esse branco ?
- Não faço idéia. Só sei que é bom. Vou lavar o carro pra gente pegar estrada. Vai fazer um fim de semana lindo, vi na internet. Barzinho antes ?
- Antes. Ah, e antes de você sair...quero dizer que te amo.
- Desse jeito eu fico.
- Fica nada...
º

24 comentários:

Grazzi em ContRo disse...

Nossa, queria que alguém escrevesse algo assim pensando em mim. E colocaria na minha certidão de nascimento e no meu epitáfio.
Cruzes, até me benzi! Quantos anjos, quantos anjos a me perseguir!

Jean Canesqui disse...

Penetrante com carinho, eu diria.

Todavia, parece-me mais um troço para se ver do que se ler, pois o som e o que há nele superam a grafia.

Não devia ser um conto o drama que eu li, mas duas pessoas a frente de um escuro sem fundo, sob uma luz intestina, fazendo vivo isso.

Não publique.Teatralize-o. Depois publique. Como o sexo e a política, esse texto precisa de corpos quentes e dispostos.

Bela Figueiredo disse...

parece até uma égua loca, vomitando fonemas...

Zeze disse...

Primo, "O melhor casal do mundo"... ja vivi, ja sorri, ja chorei... ja apaguei isso da minha vida. Maravilhoso, maravilhoso!!!!!!!

Clóvis disse...

Eu juro que eu disse putaqueopriu com exclamações em voz baixa logo que terminei a minha leitura!


Rapaz, isso é bom demais.
Quanta profundade, quantas nuances de vislumbres, quantas boas questão sendo impressas.

E eu nem sou de falar bem à respeiro do que, de fato, não me toca.
Sendo assim nem me dou ao trabalho de tingir os meus comentários.

Mas porra, arrebatou-me tudo isso.
Muito bom!

Meu abraço.

cássio amaral disse...

rasgado e com uma pitada de maestria

poupéezinha disse...

Caaaaaaaaaaraaaaaaliioooooo---
Pitadas do Brilho eterno..
uma demência- muito fodaaa!!
Parabéns Paulo--
;)

Anônimo disse...

Adorei, poeta.
Pra não entender, só quem nunca experimentou a tão sonhada vida a dois. A merda da rotina, a merda maior ainda da monogamia, a intimidade que detona o encanto, as frases repetidas, os erros repetido... desculpe, não estou conseguindo ver o lado romântico,devo ter perdido em algum outro texto por ai.
bjo,bjo.
Sophia

Andreia Muza disse...

Como sempre seu texto enriquece.
bjo

SAMANTHA ABREU disse...

concordo:

"Amar tem um ranço que acaba matando o amor. Amar tem umas velas, umas bençãos, umas pizzas, uns projetos para as férias, umas enumerações cansativas".
sem pestanejar.
.D

Álvaro disse...

tava lendo um texto do na selva e vi seu comentário.
muito interessante, assim como esse texto.
estou revivendo um blog (o meu).
não escrevo tão bem e também sou mais econômico.
mas, qualquer coisa, passa lá.

igor capelatto disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
igor capelatto disse...

muito legal este uso de diálogo no texto todo... dá uma dinâmica.. sempre fui fã desta linguagem... e vc capitou bem o lance, de forma que já na metade do texto já é possível imaginar as vozes das personas!!!

André disse...

topo! vamos fazer este projeto!
abs

osrevni disse...

Excepcional diálogo, belo estilo!

Elza disse...

Olá!!
Estou passando por aqui para dar meus parabéns
pela sua indicação, ao prêmio blog 5 estrelas!
Seu blog é muito original, parabéns 2x!
rsrs..
boa semana.
=]

Carol disse...

Moço Paulo:

Eu tenho relido o que me escreveu. Mas você nunca mais vai lembrar.

Voltar faz parte da vida.

Beijos

Carol

carla granja disse...

olá! ao lêr este texto me fez rir principalmente mais po fim,super interessante , não sei pq mas me fez lembrar algo,algo engraçado, uma historia familiar. se kiseres dá uma olhada no meu blog ké feito com poemas de minha autoria têm videos,fotos minhas têm de tudo um pouco . não têm histórias maravilhosas como as tuas,mas olha é o k sei fazer.
http://paixoeseencantos.blogs.sapo.pt

Carol disse...

Em algum momento você escreveu pra mim

http://www.cavalosmarinhos.blogger.com.br/2003_07_01_archive.html
(ultimo post, os comentários, é um exemplo).

Beijos

André, um Jerico disse...

Mulheres tem uma visão do infinito demasiadamente interessante, e não raro usam-no como medida do todo. Já vi isso muitas vezes. "Vc.me ama infinito" é clássico entre o sexo feminino. Gostei!!

Ainda não apareceu no Jerico, hein? Tem até um link seu lá.

Abç

Carol disse...

Se vc entrar em www.cavalosmarinhos.blogger.com.bre fuçar nos arquivos (tem uma caixinha no alto, pra direita com as datas), talvez abra algo... vai lá pro mês de julho de 2003, nos ultimos posts da página.
Tem alguma coisa sua por lá.

Anônimo disse...

Minha nossa quanta inspiração e quanto tesão!!!!!! Seu texto realmente tem alma, alias, tem alma...pele...etc...

Anônimo disse...

Prá quê ??
Palavras que em conjunto dizem o que "ele" é e se mostra como: pensem como quizer.

Anônimo disse...

o brilho eterno de uma mente sem lembranças