segunda-feira, 16 de julho de 2007

Listinha Pela Não Edificação.


Muito bem. Fiquei sabendo há pouco sobre umas listinhas que estão acontecendo por aí, ( aí = mundo dos insinuantes e petulantes blogs literários, entre os quais introduzo o meu com ou sem trocadilhos) um jogo de montar listas dos livros que mais colocaram fogo nas cabeças dos escritores. Cinco livros, cinco escritores por blog. Isso mesmo, a idéia é a mesma da corrente, quebrou cai um dente.
Aqui, nesse jogo, não sei o que acontece no caso de quebra. O escritor nunca mais vai conseguir publicar um livro? Pode ser. O que em um bom número de casos, seria uma benção dos céus. Mas como quem escreve está meio que pouco se fudendo pros céus, eu me vejo diante de uma grande indiferença quanto às regras: Quais os meus 5 livros prediletos, canônicos ( Sacaneei, Harold Bloom !) , de toda minha inútil vida ?
O escritor, antes de mais nada, tem duas profissões no mínimo: a primeira delas é ser obrigatoriamente um leitor. Não existe escritor que se preze que não leia. E ler é verbo amplo, passeia pelos clássicos ( mesmo se for para se engessar um pouco, conter ímpetos) e pelos contemporâneos ( mesmo que seja para dar uma rebolada tediosa em algum boteco da Vila Madalena), e faz de tudo para transformar contemporâneos em clássicos.
Dessa forma, como eleger apenas cinco ? Método : jogando pra cima. Pode ser. Eu peguei alguns que penso contribuir para quem vem aqui. Livros essencias, que eu me sinto a ala vontè para resenhar, e cuja leitura tenha uma boa dose de prazer, mais que de obrigação. Nem todos aqui são escritores, nem todos são obrigados a ler o que nós somos.
Resenhar no jogo que apresento, por convite-maldição de JEAN CANESQUI (http://aoficinadodiabo.blogspot.com), que por sua vez foi forçado por ALEXANDRE HEREDIA, significa brincar com os textos. Não estou escrevendo para Veja. Nem para a EntreLivros, que meus netos me perdoem pelaquela triste vez. Vou falar o que bem entendo sobre os cinco escolhidos a dedo com esmo. Do jeito que eu quiser. Com o tesão que me deram, nos aspectos que me gritaram em ressonância com meu espelho.
A gente se espelha. Autores, outras histórias, mitos, lendas, maneiras de se relacionar e de morrer. As grandes histórias já foram contadas e não são muitas, na verdade, menos que cinco. Bem menos. O resto é variação, simulacro, alegoria e alguma safadeza mais ou menos esperta.
Os meus 5 livros estão fotografados por mim, aí acima, sobre um cobertor. Hoje chove aqui e faz frio. É para esse ambiente de calor que quero trazer essas histórias( optei apenas por romances, já que não vi, nos outros dois caras, ensaio, poesia, filosofia, física quântica ou atlas geográfico...não sou eu que vou quebrar muitas regras de tão literata corrente), essas frases, essas letras e quem por ventura pintar aqui durante o tempo de permanência do atual post. Aconchego, paixão por esses autores. E pelos leitores que venham a se apaixonar também por eles.
No fim da minha lista ( chamada no jogo de Meme) invocarei o nome de 5 escritores que tenham blog, para continuarem o Big Brother Acadêmico Diletante. Confiram, sigam, acompanhem. Obviamente, vou privilegiar amigos. Quero cuidar bem dos meus livros: que tenham boa vizinhança é o mínimo pelo que posso lutar.
Ok. Vamos aos atores principais e seus atos:
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1) Um Copo de Cólera - Raduan Nassar.
Raduan foi um grande escritor, apesar de ainda estar vivo. Uma personagem minha ganhou seu nome. Ele não é mais um escritor. Parou com tudo e virou Rimbaud bucólico. É o único autor brasileiro da minha lista, o que deve servir para mostrar o grau de meu otimismo ufânico. "O Copo" é seu livro mais fininho. Quase escolar de férias. Mas é um impacto sobre a maneira como até então foi descrita relação amorosa. Homem e Mulher. Uma chácara. Sozinhos por dias. Eles se amam, eles sentem tesão um no outro. E muita, mas muita raiva. A raiva que só o amor faz suportar para esquentar o ventre. Raduan descreve de forma a causar asma satírica no leitor. Falta ar, chia o peito e ainda endurece a pica. Teve o filme do mesmo nome, fez um certo furor: o casalzinho lá parece que trepa mesmo na frente da lente. Mas que nada, sai da minha frente que eu quero passar e ficar bem bêbado infinitas leituras com o copo de cólera. Ou seja, nunca mais me apaixonei do mesmo jeito. Quem viveu sabe e a delagacia da mulher também.
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2) Trópico de Capricórnio - Henry Miller.
Falar de um livro de Henry Miller é falar de todos dele. O único autor em que eu perdoei a mesmice. Ele é o si mesmo de cada linha. Que porra de eu-lírico o cacete. Que meio história autobiográfica, se melhorando nos azeites. Ele não: fazia questão de se piorar. O que não pensem os incautos, fazia dele um imoral. O homem que se condena em público é o mais moralista de todos. Um dia, pra quem não entendeu, eu explico. Tanto faz se de Capricórnio, Câncer, Sexus, Plexus, Nexus, Primavera Negra, tudo a mesma merda maravilhosa. O escritor que não desiste de ser ele mesmo. E de ser escritor. De amar as mulheres. Magoar as mesmas. Subir aos céus com os amigos ( Miller, como disse Érica Jung, antes de um pornógrafo, é um místico). E trair, na próxima página, os mesmos amigos. Como, sendo tão inseto, o humano é ainda o maior barato que existe ? Miller prova. Eu tive problemas com a bebida na época em que o li. Eu achei que vivia entre Paris e Nova York. Eu mandei minha mulher mudar de nome. Eu mudei de nome. Eu recomendo essa danação.
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3) Almoço Nu - William Burroughs.
Muitos erram sobre Burroghs e sobre a "Geração Beat". Foram autores muito diferentes entre si, com livros muito heterogêneos no mesmo autor. Mas talvez "Naked Lunch" seja o único imortal. E isso não é pouco. Raros livros escapam de uma tarja, de uma etiqueta, rótulo como vocês dizem. Burroughs escapou. E olha aqui, não há um escritor de hoje que não cobie em alguma muita coisa esse sacana. Mesmo que nunca tenha lido o mais infernal dos almoços. William, após matar a sua mulher acidentalmente ( ? - uma brincadeira [ ??? ] de Guillherme Tell com uma automática) escreveu isso aí. Drogas, barra pesada, homossexualismo, criação literária, espionagem, poesia, jazz, viagem para Tânger, surrealismo único, etc e mais alguns etcs. Como coube isso tudo em único livro e mesmo assim, manteve a pegada, se fez paradigma literário ? Pois é. Como diz a EmeTeVê, é por isso que "Almoço Nu" ocupa a nossa sei lá que posição. Para quem tá sem saco de ler, vale tanto quanto o filme baseado na obra, do David Cronemberg. Quem for esperto, injeta o livro e dá o bunda pro filme. Gozão.
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4) Viagem Ao Fim Da Noite - Louis Ferdinand Cèline.
O melhor escritor de língua francesa de todos os tempos e acabou. Fim de papo. Quem ? Proust ? Mallarmè ? Baudelaire ? Que nada. Cèline. E esse é o seu melhor livro. O que pegou que ninguém conhece o sujeito. Ueba, essa parte é boa. Ele foi o maior escritor anti-semita da história do nazismo. Sim, os próprios nazistas ficavam assustados com seus panfletos contra os judeus. Isso me soa engraçado. Os próprios nazistas. Se para você soa assustador, relax. No "Viagem" não há essa pregação. É literatura em sua máxima potência. Um homem que do nada ( mesmo, sem chances ao psicologismo) resolve virar soldado e ir pra guerra, nesse caso, a Primeira, sem acreditar em porra nenhuma. Não é um romance histórico, nem fudendo. É menos histórico que A Divina Comédia, só que Cèline escrevia bem melhor que o Dante. Corrosão, sobrevivência e colhões de aço. É com ele mesmo.
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5) 120 Dias de Sodoma - Marquês de Sade.
Todos acima são filhos desse livro. Aliás, todos nós, homens, mulheres, bestas, bancários, menopausadas, escrotos, psicanalistas, enfim, a corja humana toda é filha de Sade. Um livro que se passa em 120 dias. E pra que tanto ? "Ulisses" de James Joyce é apenas um dia e por isso mesmo é genial ! Tá, ok. Mas Joyce não seria capaz de enumerar, profetizar, literalmente mesmo esporrar, cagar, mijar, assassinar em cima de cada uma das todas taras humanas. Pensei em todas que já cometi, as que tenho vontade, as que tenho nojo, as que nunca pensei até então. Pois é. Estão todas lá. Quando o Marquês escreveu a história de nossos "heróis" libertinos, estava preso na então Bastilha. Na confusão revolucionaria e punitiva, achou que o livro tivesse sido perdido para sempre. E assim, todos os seus livros seguintes foram reflexos melancólicos de "120". Mas não se perderam. Foram bem escondidinhos. Livro mais maldito nunca houve e nunca haverá. Por isso sumiu. Na ascendência do modernismo europeu, uns doidos fizeram a coisa vir à tona. Ninguém mais sobre a Terra, mesmo que não leia, poderá ser salvo. Que bom. Mais divertido assim.
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º
Isso aí.
Agora, vamos as nomes dos próximos no joguinho.
Deixe-me escolher...
°
ESCOLHIDOS ( Favor segui-lôs, são ótimos para o fim proposto) :
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Carol Custódio : http://naselva.com/carol
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13 comentários:

Jean Canesqui disse...

São livros que eu sempre quis ler, com excessão do trôpico que eu li no meio de muita punheta.

Mesmo do meu patrono, o Divino Marquês, eu li Sodoma, apenas certos contos morais, para elevar o espírito da juventude porralouquista.

Parabéns, vc é da família.
Mas quem come a priminha sou eu.
Vc pode ficar com nona.

SAMANTHA ABREU disse...

desses, só li "Um Copo".
achei ardentemente angustiante.
E adorei por isso.

me cutucou o estômago, o coração e os nervos.

os outros, ainda não vi, mas gosteu das sugestões...
beijos!

Bruno Ribeiro disse...

Belas escolhas. Eu, particularmente, sou maluco por Henry Miller. Releio Trópico de Capricórnio só para ficar de porre e depois amargar uma ressaca daquelas. Figadal.

Kaverna disse...

Os demônios me devem

Eles me devem grana, muita grana.
Sempre emprestei e ajudei em coisas que eles nem imaginam, quando cobro, eles ficam putos, achando que o que cobro é sem direito.
Ora, como sem direito, se sempre deixei claro que não acreditava neles, foi a maior besteira eles acharem que eu ia cair no papo furado deles.
Quero nem saber, devem tem que pagar. De um jeito ou de outro eles vão me pagar, seja como for, vou receber o que é meu por direito, nem que tenha que colocar Deus como cobrador, algo tem que ser feito, não posso ficar no prejuízo. Não foi eu que crie isso, só fiz a minha parte, e portanto, quero meu pagamento. Foda-se! É justo querer receber pelo trabalho feito. Nem que seja em prestações, eles vão ter que se virar, vão ter que vender algo que tem de valor, eu faço isso sempre quando devo algo, que porra eles acham que são, pra não me pagar, vendam tudo! Se virem! Vendam até suas almas, não importa, quero minha parte.

Serenade disse...

Agradecida por compartilhar suas preciosas leituras com comentários que dão o que pensar...
Beijares e abraçares

Grazzi em ContRo disse...

Dos cinco mencionados só li dois.
Um copo de cólera...é...preferia pensar que foi só ficção..
E Miller..Pô, fiz um poema pra ele e queria falar no ouvido bem baixinho. Mas acho que ele só me deixaria falar até o segundo verso. Quem sabe!

cássio amaral disse...

brother,

pra lá de bom e pertinente. ler, reler e treler pra levantar a espada e cortar o signo certo.

cara, que aplicada aqui de escritores. muito bom, muito bom mesmo.

abração velho.

Bela Figueiredo disse...

até domingo eu faço o post. i promisse. e sou feliz e não é de quimera.

Anônimo disse...

Deve ter sido difícil escolher cinco! Alguns livros achamos ótimos por toda a vida, outros são como música, nos servem em determinadas situações, momentos especiais que tem trilha sonora e livro de encaixe, não sendo estes menos valorosos que os que se tornam um clássico para a coletividade ou para uma unica criatura.Daí a difículdade, aquele que hoje não serve pode já ter servido e muito.
Quero ler os teus, de tua lista.
Podem encaixar no meu hoje ou no sempre.
bjo.bjo.
Peter Pan

Anônimo disse...

Livros, livros e livros. A única coisa que vale mesmo o próprio quilo.

poupéezinha disse...

Muito boa sua seleção de dez.. Interessante destrinchar perfís pelas referências;
Bj

igor capelatto disse...

Com certeza você atingiu o ponto certo de vaporização. Obrigado pelos vapores em meu site, acertou em ceio em meus gostos, rapaz. Sou fã do Muttarelli e Truffaut.

Os olhos que tudo vêem são meros anagramas de Truffaut. Ele dizia que 'cada olho vê um mundo, uma relaidade diferente'. E interpretamos, ao ponto de vista, as coisas de forma muito mais diferente.

Um texto seu, por exemplo, me gera uma imagem e para outra pessoa gera outra imagem.

E para você, a inspiração e a imagem que te veio a mente ao escrever seu vapor foi completamente diferente, com certeza.

Espero que possa sempre estar lendo meus surreais contrapontos. E quem sabe uma hora dessas não colocamos estes contrapontos em um texto mesclado dos seus vapores (vamos escrever algo juntos).

Já que vamos trabalhar isso em um curta...

abração e valeu pelos elogios!!!
igor

Anônimo disse...

necessario verificar:)