quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Armaduras Salinas.


Recomendações de Leitura- ou prévias : Antes de ler o texto abaixo, se reportem ( os que ainda não o fizeram) ao meu texto "Sem Onda...", aqui mesmo no Vazamentos de Vapores. Em seguida leiam Grazzi Yatña em http://grazziencontro.blogspot.com/.
É toma cá dá lá. Um projeto de histórias retorcidas em si entre eu e Grazzi.
Para maiores emoções, sugiro mesmo que sigam as "recomendações- ou prévias".
Boa diversão !
Paulo Castro.





º

Nada te é pior que concordar contigo, porém, realmente sempre escapa algo, como os pés da classe média....como eu gostaria de bebê-los assistindo a goleada do Real Madri. Dar de beber pés ao manco, até mais, se eu pudesse comeria-me a classe média com maçã e rabinho retorcido dos apertados bangalôs de barro, aulas de argila, por exemplo, mesmo Sílvio Santos e as leis da física. Não de atoagem, nem de atonal, mas penso nisso já que do inverso oposto de ti é você ( carinho desnervado) ainda assim estou aqui, ainda que não me caiba, o zero atritoso.


- É você ( carinho próximo e eficientemente cotidiano) uma bobagem.


Estar e não ser, ou o que de mim é tátil, tu.


Provas não faltam: como adivinhou que desejo para o dia da árvore uma máquina de lavar? Lavar pés em chás, escaldando tradições: repelido álbum de retratos em carrosel ( vovó pedindo socorro no arredondado do vidro espumoso). Tu. Você ( carinho até vai ).


Honestamente como o riso sem motivo, acho mesmo que nos divertimos com essa armadura que matou minha mãe de parto ( pozinho, vovó, vá com crueldade para as caspas de Sílvio Santos e suas goleadas de madre superiora em comédia de atores negros), é a tua versão sua ( carinhos vamos batê lata) que me segredo inutilmente: até mesmo da língua assemelha sangue.


º


Homens e mulheres só existem por serem o axioma impossível.


º


Hoje aguardei o "timing" de sua saída ( carinho alface e sabão em pó) e chamei uma buceta. Das que não são dadas aos tremiliques. Ela tinha pés e foi de espantar a quantidade de histórias que me contou diante da negativa à sua nudez ágil. Eu ia lavando-a em carqueja enquanto soube por exemplo, algo como negociar prestações da faculdade, filho que mora em Minas, linda cicatriz de uma tal cesárea. Riu quando tremi se poderia fotografar. Apenas disse que era feio, mas riu bonita. Longe de ti. Longe de você ( carinho "ninguém faz igual"). E pensar que nosso último guru nos abandonou por não termos "faculdade alguma, sem condiçoes de aprendizado das velas coloridas". Só por causa da risada e dos anjos, nem ao menos negociou ? A buceta também ficou indignada em nosso favor, raridade são essas moças, tanto que riu à raia da urina, quando ia contando e lambendo a planta (e a couve ? alface e couve, por Deus !) do pé esquerdo. Estava com a gente e abria. Cabendo mesmo o zero, "lute, homem, não é um à esquerda como ela te faz crer!".


º


Logo você chega e eu a mandei embora. Saudades. Também fumava cigarros normais !


De você ( carinho alface) espero a couve prometida no retumbar das latarias. De ti, que não neve mais nos meus óculos de leitura & veraneio, em coxas largadas na cadeira de praia.


º

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

Sobre o texto abaixo e muito mais.....

Pois bem, queridos, queridas e pulhas em geral:É isso aí.Pra vocês entenderem (ará) do que a Grazzi Yatnã está falando no blog dela terão que vir até aqui: www.vazamentosdevapores.blogspot.com.E a continuação disso se dará lá. Ping-pong mesmo. Se der tontura, segurem no ombro da velha com andador mais próxima. E não pensem já pensando com essa velocidade marota que é uma guerra dos sexos, ou uma completude....olhem bem pra Grazzi, olhem bem pra mim. Lá somos disso ? É ranhura mesmo, cross-cap, erosão e aumento da falta.Então é uma rodada em http://grazziencontro.blogspot.com e outra em http://vazamentosdevapores.blogspot.com. . Interfiram, tomem partido, achem que estão no BBB através dos Comentários. OU os use de maneira radical....ou seja, nasçam como raízes desse rizoma, caules desse tronco e a gente não sabe no que isso pode dar. Para ser bem didático e cidadão estou deixando o mesmo recado no Grazzi EnContro. Amarradinho, não ? Quando um responde ao outro ? Confesssamos que não sabemos desse timing. Mas penso que compensa estarem alertas como nos gibis do Capitão América. Toma lá, dá cá. Estão lidando com duas gentes sem concessões literárias nem fibromiálgicas.
Beijos. E se divirtam aqui e lá.
Agora: "Sem Onda...." e a resposta já na Grazzi Yatnã, postada.
º

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Sem Onda...



Você me pergunta, depois de passar tinta na sua nudez, azul deixando rastros do que combinamos, porque eu passo - e tomo - tantos cafés toda manhã, nas enormes xícaras que compramos em Berlim ou quem sabe logo ali mesmo, mas você prefere me fazer acreditar em Berlim e eu me submeto à hipnose que você aprendeu em Paris, com Charcot, ou talvez logo ali mesmo, onde compramos talheres e pratos, os sorrisos da multidão ao redor me confundem. Eu não conheço ninguém e todos parecem me conhecer, e mais, como se eu fosse uma pessoa muito educada, um bom-vizinho, alguém de certa normalidade. O tipo de pessoa que dorme no mesmo quarto que a namorada, que até mesmo tem uma namorada, e costuma vê-la nua, beija-a na boca com carinho, a penetra com vontade e goza(?- esses malditos livros !) lá dentro já que ela acreditaria em pílulas e não faria, por exemplo, brincos delas.

Não que você tenha feito brincos de anticoncepcionais - a concepção para você te faz vomitar, a simples idéia, o inocente início de conversa sobre isso - não, você nunca fez brincos com os 21 comprimidos, mas estamos em um ponto em que eu sei exatamente o que faria. Ímpar.

Não era disso que a gente tentou fugir? Quartos separados, um em que tenho meus livros ( você nunca exerceria censura sobre o que leio, mas o tom do seu hum-hum muda de lombada para lombada), minhas fotografias ( nenhuma sua, por mais que tivesse arriscado propor, mais e mais nos últimos tempos e com a preocupação com nossa "comunidade individual"), outro em que você tem seu som, fone ( para não me incomodar com SUA LOUCURA), espaço para dançar e o varal com carne de sol à janela, para seus sushis.

Como eu poderia tomar menos café? Hoje tentei chutar o jornal embrulhado em saco contra a garoa, e a única coisa que aconteceu foi a imobilidade e as gotas entrando pelo meu chinelo plástico, aquele que me deu, um de cada cor e tamanho...eu poderia ter me abaixado, pego com a mão, trazido para dentro de casa, deixado as gotas maiores e violentas pingarem no jardim e então pegar o jornal e ao invés de colar as páginas camada sobre camada sobre camada sobre camada, a sala, ler o que estava escrito...e se um filme bom passar na matinê ? Não digo para irmos de noite, como fazem os Outros, os que não entendem a nossa proposta de comunidade individual, mas seria bem rebelde, eu imagino, eu desejo, sem hipnose hoje, não que esteja montando um levante, assistirmos um filme às duas da tarde, não ? Até mesmo eu proporia que enchessemos os pacotes que seriam das pipocas com folhas e pétalas. Não é mesmo ? Sem onda ? Prefiro nem esboçar a tentativa. Sinto-me o panaca da escola tomando tanto e tanto café, correndo para o meu quarto para fumar cigarros, assim, normais. Através da porta que nos separa, sei que você está azul, e ouço seu riso.

Amor, já não é preocupante o fato de eu estar fumando cigarros...normais ? Acho que você não está sendo esperta, ou bem o sei, sua esperteza está em fingir-se o tempo todo em não se importar com nada, que eu possa ir embora, destrancar a faculdade, fazer carreira, aprender a dirigir, descobrir onde estão morando meus pais, se tenho pais, não me recordo ( "olhe fixamente para meu clitoris....assim....assim...."), afinal, é a liberdade, mas quem foi que disse que quero essa porra dessa liberdade, café, mais café, os dedos dos pés ainda molhados e frios e para não te perder preciso ter ao menos uma idéia original por dia, que nem sei mais se é minha, sua, apenas sei que a originalidade nada tem mais de original, já provamos isso, eu provei isso, mas você insiste. Provei, mas não falei. Ao contrário, liguei meu notebook em meu quarto e você no seu. Acionei a webcam e com o pau escondido entre as coxas e pêlos, simulava para você uma masturbação feminina e você se depilava com uma guitarra no colo, mostrando-me apenas os pentelhos que ia esfregando nas cordas, gravando tudo isso no mp3.

Como com os cigarros, oposto, não sinto vontade alguma de me gozar. Acho que se eu batesse uma punheta pensando na atriz do filme matinê ( um plano ?) eu teria um pouco mais de coragem, mas é impossível a idéia de uma ereção. Não que não tenha tentado, com uma das vizinhas mais sorridentes a mim, mas era algo muito errado de se fazer, errado, errado, errado, a palavra era obcecada na cabeça, pois a gente aprendeu que gozar era acho que religioso demais, ou capitalista demais, ou comunista demais, o fato é que eu sei que lá fora as pessoas têm ereções e que depois disso vem uma coisa boa. Uma imagem ! Eu sou menino e corro contra o vento para que a pipa vá mais alto e uma voz masculina muito bondosa diz "isso, isso". Mas é assim, sobre o banquinho, sua bunda azul e aparentemente dura, faz mostrar os ossos, quando fica na ponta dos pés e cola as páginas do jornal de hoje na parede. E eu sou livre para passar mais e mais café e fumar cigarros normais escondido no quarto sem esconderijo em vão.

Contanto que depois eu escreva um poema com as palavras que me ocorrerem à (minha?) cabeça, ou faça barulho que for com o mais novo instrumento musical que você trouxer da rua, disse-me faltar-nos um oboé.

Então você diz, de uma ou outra forma: - Você continua sendo meu tesão louco e livre !

Sorri e vai dançar com seus fones de ouvido.

Mas sabe, como é desesperadoramente lindo esse teu sorriso !

Lindeza sem nome. No dia em que eu conseguir descrever o que sinto quando você sorri, já aviso calado, chega, chega mesmo. Eu... tentarei sair daqui.

º

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Antiquário ao Amanhecer.



"BABY
BABY
BABY
SPEND
YOUR
TIME
ON ME..."
( Duffy )


Ela dançava com o cigarro entre os dedos, o copo derretendo sobre o criado-mudo, os meus fios e os do abajour descapados. Olhos fechados, descalça, jeans lycra, sorria com partes da música que lhe eram piadas ou mesmo pequenos gozos internos: sedução, esse crime eu conheço e é o tipo de encrenca em que sou inafiançável como confesso cúmplice.
Meus livros se espalhavam pela sala em montes desorganizados, que é a única maneira útil de organizar livros. E era com essas pilhas que ela dançava, como corpos involáteis, estáticos, mas que carregavam coisas mais ou menos belas ou úteis dentro deles. Agora mais. Ela dançava comigo e para mim, volátil. Rebolando de pernas abertas, ia descendo joelhos serpenteando o ar vindo do ventilador preguiçoso. E subia lambendo as páginas compressas, algumas tantas já amereladas, e eu esperava um traço de humanidade que me redimisse: que ela espirrasse com a poeira acumulada. Mas nada.
E eu? Eu era uma poltrona, a almofada mais afundada, a marca de um corpo descapado, o suor do copo como risco de uma faísca que eu sabia não poderia vir. Não para estragar esse momento em que até mesmo a cidade inteira, pela luz azul-salmão do fim da madrugada na janela, parecia acolhedora. Um movimento errado meu e tudo se perderia. Mesmo quem estivesse acordando de um sonho bom, quilômetros dalí, quem estivesse passando café para o marido bacana no banho, a criança e seu paninho com chupeta amarrada...um erro meu e toda felicidade dessa gente poderia passar para o outro lado, ao menos dentro de mim. Um erro. E eu tenho o costume de ser todo errado. O limite entre o sublime e o ridículo pode ser um risco invisível no disco. A faísca anti-lírica.
Dos livros ela foi para diante do espelho( permanecendo de olhos fechados), acariciando rococós e barrocos, a antiga máquina de escrever nas unhas de um vermelho escuro decidido, como que calculado para que eu ficasse cada vez mais me agarrando a uma espécie de religiosidade porosa ( o suor do copo escorrendo em gotas insidiosas, labaredas líquidas invasoras, quase uma covardia contra a ausência de fita isolante nos sonhos que acontecem).
E assim ela foi indo, dando vida ao inanimado, quântico ou não, eu podia ver o estado deplorável das moléculas, a eminência de uma auto-combustão. Mas não, havia técnica naqueles pés descalços, perfeitos, o objetivo era deixar a realidade arfante, ronronante.
Então, com três círculos perfeitos e uma flexão de si, estava ajoelhada entre minhas pernas, as mãos em minhas coxas, os olhos finalmente abertos. Na janela o sol já era íris de verão alaranjada e eu tomei o que havia restado no copo, enxuguei-o na camiseta e banquei aquele olhar.
- Que cara ! Você está vivo, Mr. Zumbi ?
- Ou o contrário.
- Entendo. Agora, sabe, quero dormir um pouco. Posso usar sua cama?
- Você conhece o caminho desde...
- Psiu. Mais tarde me leva pra um antiquário lindo que eu conheço?! Leva ? É perfeito! Diz que vamos ?!
- Sim, é tudo que quero.
- Te adoro !
Rápido beijo na boca que continou em extensão nos passos saltitantes em direção ao quarto bagunçado. Desorganizado. E vivo. Desde...psiu.
Peguei umas moedas de ouro sobre o balcão e desci pra comprar pão francês.
º

domingo, 16 de novembro de 2008

CONTROL.

"Dir-se-ia que suas asas esbranquiçadas , atadas por fortes presilhas, tem nervos de aço, de tal forma fendem o ar com facilidade. Seu corpo começa por um busto de tigre e termina por uma longa cauda de serpente. Não estou habituado a ver tais coisas".
( "Cantos de Maldoror", LAUTRÉAMONT)
º



Maravilhas acontecem em um quarto com as asas da janela semi-abertas. Caduquez precoce, tudo de bom é bastante pouco.
Mas cada segundo vivido deve ser deixado passar, mesmo que na imobilidade de acender um cigarro atrás do outro, sabendo ser usura de tempo, que não existe muito mais o que fazer, a cerveja gelada.
As garotas andam maledicentes mudas humoradas, as que ainda não estão em cadeiras-de-rodas motorizadas pela alta técnica de seus namorados com tração nos quatro membros.
- Sabe, não é bem assim, acho que você sempre exagera.
- As asas da janela, tenho que abrir um pouco, o sol está se enfiando atrás de uma nuvem bem sinistra.
- E a nossa viagem ?!
- Durante um ano eu vivi andando de ônibus no mesmo ritmo e em determinada curva longa, eu de janelinha sem asas, apenas o cheiro enjoativo dos beiconzitos anominais das crianças vomitivas, eu olhava para bem alto, nos ângulos superiores do vidro e via o céu, e lá eu me via em uma viagem com alguém que valesse as penas e atritos, mas existia aquele cheiro a vida em seus segundos e minutos de que eu abdico, beiconzitos oleosos ( no sul chamam sabiamente de GRAXA), as mães conversando com o celular, a criança vomitando nos pés de trabalhadores olhos fechados sonhando com as prostitutas oriundas do décimno terceiro relativo ao tempo de férias vezes os dias contados em fração de horas extras e computadores epilépticos. Por isso eu olhava para a janela e via que atravessava nuvens de fumaça e reencontrava antigos segundos, minutos, areias, praias, correr atrás da bola em um vôlei improvisado de camarões assados, mar azul, bundas deliciosas, almas perfumadas sem bacon, bem antes de vestibular e do enfisema e do Alzheimer da minha mãe. Ela era muito parecida com a Malu Mader, sabe, mas ainda sem clínicas de desintoxicação e urinol.
- Sabe que agora o check-in pode ser feito em terminais eletrônicos nos aeroportos. Uma amiga minha me falou de um lugar delicioso logo depois da fronteira com Goiás.
- Forneira? Eu me atrapalhei todo com contas bancárias, cpf, relógios calcificados e cartões de fidelidade e pontuação atmosférica e universitária, em carreira acadêmica ou essas escadas rolantes de sexo oral nas instâncias vídeos amadores do "secretária do chefe". Escadas rolantes e Escalas De Qualidade de Vida, esse tipo de piada.
- Ainda é muito recente para eu me envolver com alguém, eu ainda amo ele outro. OU eu ainda sou muito tímida para me esfregar na dianteira. OU não é estrategicamente no tempo de agir, eclesiastes. Por isso falo em férias e em uma maneira subterfúgia de sermos felizes. Óperas ao amanhecer.
-BEICONZITOS.
- Façamos um trato até o ano que vem, penso no assunto se você não voltar a fazer aquelas coisas abomináveis.
- Eu apenas me atrapalhei pela arte da solidão maravilhosa, marte de peles, em acertar a fração ofuscante e luminosa das asas da janela com o perfume escolhido por mim: celular desligado, suor da nudez, inapetência do choro se divertindo na trava da garganta...
- Não é isso que quero. Vou procurar uma cadeira de rodas, nem que seja de segunda-mão, pernas, braços, sexo, alma, credo.
- Corra atrás de seus sonhos. É de menino que se torce o pepino geneticamente alterado na fumaça. Uma idéia na cabeça, uma câmera na mão. Na saúde e na doença.
- Eu vou embora.
- Nunca esteve aqui, ou seria OUTRA.
- Você precisa de alguns exames de sangue, urina e espermograma. Cem gramas de queijo do Exército da Salvação na sopa.
- Preciso acertar algumas coisas com as asas do sol e das tempestades vindouras, com licença.
- Nâo deixe seu tempo passar apenas assim...
- Cansativa. Boring, Boring...me traz uma cerveja e vá até um caixa eletrônico salvar sua vida, garota.
- Sabia que estão espalhando coisas e beiconzitos contra você ? Até mesmo telefones celulares com suco gástrico !
- Deixe-me estar. Sabia que estou espalhando asas no vento, no fogo, na terra , na água e nos meus dentes ?
- Incorrigível !
E a GAROTA foi mal-humorada comprar uma camiseta com slogan e senha empregatícia, contrato higiênico e covarde cinza borrado.
Um pouco mais de sol, assim, de gelo, seco isso, as chuvas dos vulcões entram na minha corrente sanguínea, molhe DURO.
Eterna curva
pontual
para o alto daqui:
Maravilhas descadeadas.
º

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

O Porre dos Malacos.


1)
- Por que você é tão anti-social ?
- A sociedade que é anti-social. Eu até que me dou bastante bem com quem sobra.
- Por mim, vai. Por mim. Levanta daí, coloca uma roupa. O cara está morrendo.
- Ah...uma coisa aqui no meu peito...acho que dessa vez eu vou. Fui. Adious.
- Pára. Ele é meu primo mais velho. O único cara que me entendeu quando a gente estava em crise.
- Eu não gostaria de me emocionar agora. O dr. Eduardo falou pra eu me reservar. Posso conseguir um atestado contra primos com câncer no fígado que entendem crises conjugais alheias. Segunda-feira te entrego.
- No fígado mais quinze metástases cerebrais.
- Sei. Ele foi...aquele...o único a te ententer?
- Foi. Ele mesmo.
- Vamos.
- Você muda mesmo rápido de opinião. Nunca sei.
- Nunca saiba. Melhor pra você.
°
2)
Uma casa de luxo. Você abre a porta e praticamente já está dentro da piscina. Só não cai na água porque o bar está a esquerda. Ela vai me apresentabdo para as pessoas, que vão me beijando, me apertando a mão, me dando nojo. Pular na piscina de roupa e tudo. O filho tatuado e sarado conta como vai ser bacana casar com alguém chamada Poli na Inglaterra. Descubro que Poli é ou um cachorrinho toy que late pra mim desde a hora que eu cheguei ou uma mulherzinha magra, perfeita, boas tetas, bunda adequada e um ar de elegância que beira a idiotia. Começo a mostrar a língua primeiro pro cachorro depois pra moça sentada no banquinho, coluna ereta. Nessa o toy pira e eu descubro na bronca que ele chama Malaruche. Poli é a inglesinha mignon perfeita e com crises epilépticas controlada a duras penas pelos maiores neuro-cirurgiões de Oxford. Tenho certeza que embaixo da cabeleira loira há uma dúzia de cicatrizes. Poli, olhe minha língua, Poli, vamos foder na piscina, Poli, olhe a velocidade com que eu consigo mexer isso aqui, Poli, vai tomar no meio do teu cu a serviço da majestade.
A família é grande. Não é a minha família. Dá a impressão de não ser a família de ninguém, mas uma cena que desgrudou de algum filme, outro carinha tatuado, pega o primeiro e se trancam no banheiro, uma velha que bate no peito e repete aos brados "Vou fazer 90 anos em abril", e um grupo assustador de senhoras uns bons saltos além da meia-idade. Todas com a mesma cor de pele. Montam a armação em meio-círculo. Olham pra mim. Penso em correr, Malaruche late selvagem e antes que eu possa chutá-lo da barra da minha calça, lá estão as senhoras, em uma estratégia de ataque pra Sun Tsu nenhum botar defeito. Estou cercado.
- Ah, você bebe alguma coisa, querido ?
- Sim...sim...uísque....
- Ah, estamos todas tão transtornadas.
- Ah, a doença do Dingo.
- Dingo ?
- Ah, meu marido - não sei qual delas deu a resposta. Ou todas elas.
- Sei. Grande Dingo. Obrigado. Sem gelo mesmo.
- Ah, sirva-se, deixei a garrafa ali...
Saco bem onde é o "ali". E acolá, os copos.
- Ah, mas ele está recebendo três vezes por semana a visita de uma terapeuta floral, que aplica cristais sobre os chakras. Você sabe, a gente pode curar a nossa vida. Soube que você adora ler. Que é escritor. Já leu Louise Hay ? A Gasparetto sempre diz que a gente precisa deslocar a energia da morte para onde está a vida...
- Onde está a vida?
- Ah ! Você é ótimo.
- Ah, ele é ótimo !
- Ah, você surfa ? Todos nossos filhos surfam. Só na surfa a Cris, tadinha, ela tem diabetes, bulimia. Mas está noiva. Deve se casar em Estocolmo. Para uma moça com tantos problemas até que Estocolmo já é alguma coisa, né querido ?
- Sem dúvida. Já vejo o slogan "Eu como em Estocolmo: Patrocínio Insulinas de Porco".
- Ah !
- Ah !
- Ah, deve ser humor, né ? Dizem que os escritores...
- Cadê o Dingo? Gostaria de vê-lo.
- Ah, bem, ah, ele fica em um dos quartos lá em cima. A gente não quer misturar o clima festivo com toda essa tristeza. Mas a cada hora uma de nós sobe lá e faz um carinho, lê um pedaço de um bom livro de Salmos Dos Anjos Cabalísticos, limpa o dreno dele e levamos verduras, muitas verduras.
- É. Eu realmente gostaria de vê-lo.
- Ah, um dos meninos leva você. Meninos ? Meninos ? Poli...i don't see...
- O quarto lá em cima. Não se preocupem. Poli pode rachar. Eu me viro. Não se preocupem em levar nada pro Dingo. O Maraluche também precisa de atenção. Né, verme ?
- Au au au au au au !
- Ah, Maraluche, pare lindo !
- Au au au au au au au au au au au !
A garrafa de uísque. Os copos. Questão de dar um salto e distrair...
- Maraluche, seu bostinha, pegue isso.
E lá se foi o coisinha atrás do cigarro. As mamães atrás. Minha oportunidade.
- Ah, ah !
- Ah, é um biscoito, que gentil !
- Ah, é um cigarro ! Larga Maraluche, não engole !
- Ah, engoliu !
- Ah, ele está ficando com os pêlos azuis...
E eu já estava na escada. E armado.
°
3)
Tranquei a porta por dentro.
O quarto fedia merda, bile, verduras da semana passada.
Abri a janela.
Lá embaixo, uma correria danada e depois silêncio. Pobre Maraluche. Veterinários existem também pra isso. Cães fumantes.
Enfim, Dingo:
Deitado na cama.Roxos por todo corpo, pernas inchadas, um cano transparente que saia de sua barriga enorme e babava um líquido negro.
- Dingo, abre o olho. Sei que você não está dormindo.
Ainda de olho fechado:
- O que você quer ? Não respeita um doente terminal ?
- Quero matar essa garrafa de uísque com você. É do bom. Um dos seus, é claro.
Na hora ficou esperto. Agitou. Babou um pouco no canto dos lábios.
Puxei a poltrona e trouxe pra perto da cama. Me servi e depois coloquei uma boa dose pra ele.
- Deixa eu te ajudar. Mais uns travesseiros. Você babando me enoja, Dingo.
- Isso, assim, assim está bom...
- Tim Tim.
- Tim Tim. Quem é você ?
- O marido da sobrinha que você meteu ano passado, Dingo. Ela estava se separando, você aconselhou. Uma semana antes do carnaval. Ela voltou pra casa. Uma quantia de grana alta apareceu na nossa conta conjunta. Eu saquei tudo, a trepada e a grana, antes que ela pudesse se tocar.
- Eu juro...eu nunca iria...
- Dingo. Pare. Vou chamar a sua terapeuta dos cristais. Relaxe. Somos do mesmo tipo. Só que você vai morrer em algumas horas e eu vou continuar por aí.
-...você é o tal escritor que não presta, que faz a coitadinha da....
- Dingo, Dingo. Você está me irritando. Só vim tomar uns uísques com você. Juro que esse papo de saladas está te trazendo o inferno.
-...
- Né não ?
- Pior que está, cara. Vai me serve outra dose.
- Boa.
- Quer dizer que você ficou com a grana. Que grande filho da puta !
- Somos, meu amigo, somos. Mas apliquei bem o seu dinheiro. Coleções completas. Flaubert. Balzac. E discos. Que discos. Bem diferente dos seus moleques que gastam em pó, pranchas e gostosinhas que nem sabem que você existe. E nem querem saber.
- Porra. Pior que é verdade. Me acende um cigarro desses.
- Pega o meu. Acendo um pra mim.
- Ah....que delícia !
- Traga bem. Aproveita. Mas o maço tá cheio. Tem mais de onde veio esse.
- Ótimo. O que é um peido pra quem já está todo cagado?
- Gostei dessa. Posso usar em um dos meus livros ?
- Claro. Se no inferno tiver biblioteca tenho certeza que os seus textos passados, presentes e futuros estarão por lá. Pelo que ela me contou.
- Ela não sabe me ler direito. Se você ainda tivesse tempo eu me recomendaria pra sua ociosidade. Mas imagino que morrer dá um trabalhão.
- Nem te conto. Mas chega sua hora. Mais uma dose, por favor...
- Toma. Caprichada. Pois é, Dingo, mas quando chegar minha hora, espero não estar cercado de gente tão escrota quanto você. Que merda de circo é esse ?
- Como você acha que eu fiquei rico, moleque?
- Uma das donas.
- Bingo. Você continua pobre porque casou com mulher bonita. E bem gostosa. Boas lembranças dela.
- Você prefere que eu peça pra ela subir te bater uma punhetinha ou quer ficar aqui bebendo. Se bem que não sei se ela também não foi acompanhar aquele cachorrinho viado até o pronto-socorro.
- O toy ? Pronto-socorro ?
- Dei um desses cigarros pra ele comer. São fortes, né ?
- Gosto de você, garoto.
- E eu gosto de você, Dingo. Vira aí. Nunca comi um cu com icterícia.
- Que foda. Só rindo. Acho que é mais ou menos assim o jeitão que gente como a gente morre, não foge muito disso, rapaz. Filhos estúpidos, coleção de esposas, amantes, sócio do Iate Clube, uma pilantragem aqui outra ali e quando viu, pumba, já era.
- Deixa disso, Dingo. Louise Ray sempre diz, "você pode curar a sua vida".
- Caralho, seu merdinha. Se eu pudesse me levantar daqui te enchia de porrada.
- Como não pode a gente continua bebendo, fumando e eu esperando você morrer.
- Estou sentimental. Virei um velho bostalhão sentimental. Você tem idade pra ser meu filho. sem sarro agora, imagine que dupla. Hein ?
- Eu teria medo de nós dois juntos, Dingo. Iria ser foda.
- Pobres mulheres.
- Pobre humanidade, Dingo...
- Boa. Serve outra. Tá dando um sono bom.
°
4)
- O plantonista achou um cigarro dentro da porra do cachorro. Eu pedi pra ver. Era da sua marca. Do seu fedor.
- Amor, o vício é mesmo uma coisa triste.
- Sei.
- Relaxa, gata. Apenas continue dirigindo, a brisa está uma delícia.
- Pra quem não queria ir, até que você está com uma cara ótima.
- Gostei do Dingo.
- Sério ?
- Muito sério.
Eu deveria estar mesmo com uma cara ótima. O bolso de trás da calça melhor ainda. O cheque de Rodrigo Alcantâra de Menezes. O Dingo. A letra tremida um pouco, mas eu ajudara com um apoio. Assinou me chamando de "filho" e chorando. Eu agradeço a quantidade de zeros, Dingo. Só espero não chorar no final. E se chorar também ? Alguém tem alguma coisa com isso ? Pois então, fodam-se.
°

sábado, 24 de novembro de 2007

A Noite da Tertúlia.


Imagens próprias, imagens alheias, o espelho esfumaçado, cheiro de sabonete, papel higiênico respingado. Enquanto em algum lugar, do outro lado do telefone faringe inflamada ( cigarro filtro branco), você lambe restos de sol, eu não posso evitar as junções: o sabonete limpa, o corpo suja.
De noite não, ah de noite não.
Rendinhas: vou com os dentes.
De noite não: teu corpo é teu papo de alma e o que se torna palpável é porção de mágica, mas vem cá, enfia a língua entre meus dedos, no vão dos prédios ( dormem ? amam ? amarram cordas no chuveiro ?), no vão entre meus dentes. Na sombra atrás da banca de jornal, sou cancioneiro gitano, como Lorca, mas sem ter a rigidez regida: os astros estão brilhando na ponta de seus pêlos e apenas aí, movimento de marés, arrebentação quente.
Na noite sim, umidifica.
O mais palpável é um abraço troncho que te dou e nos leva ao chão, escoriações e arranhões anônimos, risos: renomear o corpo, caos vocabular de anatomia, neologismos inaudíveis para táxis que por muito não nos atropelam ( "i have money", você tem tatuado ironicamente, globalização de varas verdes nesses arredores sertanejos, bem ali, no pinga-pinga, pisca, da pelve), a cabeça agora se chama "coroa", os pés ( ah, os pés, chinelinho que te escapa, mordido pelo bueiro, jacaré autômato e sacana) se chamam "obra por vir de língua".
E me diz no vão dos fios ao céu pendentes, me diz amorico, levantar pra que?
Fazer aos olhos do deserto noturno ( passa sim alguém, um gavião negro de olhos empedrados e fascinantes) a falcatrua de que não somos tronchos ? Que não reinventamos descaradamente o nome de tudo que nos interessa e só a nós nos interessamos por nós?
O mundo é uma cama.
De noite, bem de noite, eu sei, você insinua saber, com esse umidificar palpável que acelera fantasias prenhes na velocidade além da pobre, vaidosinha coitada, luz. Afinal, é de noite.
Rendinhas no meu estômago, o cheiro do sabonete tesão agora, liga os olhos do gavião que se faz metrô adormecido, lâmpadas esquecidas, meio assim como obra de arte: luminosidade que ninguém vê, fora a mão burocrática de chave que ainda, bem ali, naquele prédio que ronca trovões no para-raios, dorme o responsável por aqueles que acham alguma utilidade em se levantar.
Não, deixa lá o chinelinho, entrega o outro para a escada, que hora dessas, só desce, infinitamente, só desce capacetes de anjos decapitados, entre galhos inicialmente tímidos, que logo, escute o som gralhar, se tornam mata densa, irretocável: a descoberta de um continente, dois dedos no sexo.
Chinelinho alimento de bicharada.
E meu
entrar aqui em você é alimento ( noite arranhada, disco vinil),
para dois bichos que ao invés de fisiologia factual,
sabem das duas únicas coisas naturais:
fantasia e memória, assim se respira, assim...
°