segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Sem Onda...



Você me pergunta, depois de passar tinta na sua nudez, azul deixando rastros do que combinamos, porque eu passo - e tomo - tantos cafés toda manhã, nas enormes xícaras que compramos em Berlim ou quem sabe logo ali mesmo, mas você prefere me fazer acreditar em Berlim e eu me submeto à hipnose que você aprendeu em Paris, com Charcot, ou talvez logo ali mesmo, onde compramos talheres e pratos, os sorrisos da multidão ao redor me confundem. Eu não conheço ninguém e todos parecem me conhecer, e mais, como se eu fosse uma pessoa muito educada, um bom-vizinho, alguém de certa normalidade. O tipo de pessoa que dorme no mesmo quarto que a namorada, que até mesmo tem uma namorada, e costuma vê-la nua, beija-a na boca com carinho, a penetra com vontade e goza(?- esses malditos livros !) lá dentro já que ela acreditaria em pílulas e não faria, por exemplo, brincos delas.

Não que você tenha feito brincos de anticoncepcionais - a concepção para você te faz vomitar, a simples idéia, o inocente início de conversa sobre isso - não, você nunca fez brincos com os 21 comprimidos, mas estamos em um ponto em que eu sei exatamente o que faria. Ímpar.

Não era disso que a gente tentou fugir? Quartos separados, um em que tenho meus livros ( você nunca exerceria censura sobre o que leio, mas o tom do seu hum-hum muda de lombada para lombada), minhas fotografias ( nenhuma sua, por mais que tivesse arriscado propor, mais e mais nos últimos tempos e com a preocupação com nossa "comunidade individual"), outro em que você tem seu som, fone ( para não me incomodar com SUA LOUCURA), espaço para dançar e o varal com carne de sol à janela, para seus sushis.

Como eu poderia tomar menos café? Hoje tentei chutar o jornal embrulhado em saco contra a garoa, e a única coisa que aconteceu foi a imobilidade e as gotas entrando pelo meu chinelo plástico, aquele que me deu, um de cada cor e tamanho...eu poderia ter me abaixado, pego com a mão, trazido para dentro de casa, deixado as gotas maiores e violentas pingarem no jardim e então pegar o jornal e ao invés de colar as páginas camada sobre camada sobre camada sobre camada, a sala, ler o que estava escrito...e se um filme bom passar na matinê ? Não digo para irmos de noite, como fazem os Outros, os que não entendem a nossa proposta de comunidade individual, mas seria bem rebelde, eu imagino, eu desejo, sem hipnose hoje, não que esteja montando um levante, assistirmos um filme às duas da tarde, não ? Até mesmo eu proporia que enchessemos os pacotes que seriam das pipocas com folhas e pétalas. Não é mesmo ? Sem onda ? Prefiro nem esboçar a tentativa. Sinto-me o panaca da escola tomando tanto e tanto café, correndo para o meu quarto para fumar cigarros, assim, normais. Através da porta que nos separa, sei que você está azul, e ouço seu riso.

Amor, já não é preocupante o fato de eu estar fumando cigarros...normais ? Acho que você não está sendo esperta, ou bem o sei, sua esperteza está em fingir-se o tempo todo em não se importar com nada, que eu possa ir embora, destrancar a faculdade, fazer carreira, aprender a dirigir, descobrir onde estão morando meus pais, se tenho pais, não me recordo ( "olhe fixamente para meu clitoris....assim....assim...."), afinal, é a liberdade, mas quem foi que disse que quero essa porra dessa liberdade, café, mais café, os dedos dos pés ainda molhados e frios e para não te perder preciso ter ao menos uma idéia original por dia, que nem sei mais se é minha, sua, apenas sei que a originalidade nada tem mais de original, já provamos isso, eu provei isso, mas você insiste. Provei, mas não falei. Ao contrário, liguei meu notebook em meu quarto e você no seu. Acionei a webcam e com o pau escondido entre as coxas e pêlos, simulava para você uma masturbação feminina e você se depilava com uma guitarra no colo, mostrando-me apenas os pentelhos que ia esfregando nas cordas, gravando tudo isso no mp3.

Como com os cigarros, oposto, não sinto vontade alguma de me gozar. Acho que se eu batesse uma punheta pensando na atriz do filme matinê ( um plano ?) eu teria um pouco mais de coragem, mas é impossível a idéia de uma ereção. Não que não tenha tentado, com uma das vizinhas mais sorridentes a mim, mas era algo muito errado de se fazer, errado, errado, errado, a palavra era obcecada na cabeça, pois a gente aprendeu que gozar era acho que religioso demais, ou capitalista demais, ou comunista demais, o fato é que eu sei que lá fora as pessoas têm ereções e que depois disso vem uma coisa boa. Uma imagem ! Eu sou menino e corro contra o vento para que a pipa vá mais alto e uma voz masculina muito bondosa diz "isso, isso". Mas é assim, sobre o banquinho, sua bunda azul e aparentemente dura, faz mostrar os ossos, quando fica na ponta dos pés e cola as páginas do jornal de hoje na parede. E eu sou livre para passar mais e mais café e fumar cigarros normais escondido no quarto sem esconderijo em vão.

Contanto que depois eu escreva um poema com as palavras que me ocorrerem à (minha?) cabeça, ou faça barulho que for com o mais novo instrumento musical que você trouxer da rua, disse-me faltar-nos um oboé.

Então você diz, de uma ou outra forma: - Você continua sendo meu tesão louco e livre !

Sorri e vai dançar com seus fones de ouvido.

Mas sabe, como é desesperadoramente lindo esse teu sorriso !

Lindeza sem nome. No dia em que eu conseguir descrever o que sinto quando você sorri, já aviso calado, chega, chega mesmo. Eu... tentarei sair daqui.

º

24 comentários:

Jacqueline Mün disse...

Paulo, parece que você viveu 1000 anos pra entender tão bem dos relacionamentos humanos.E pra escrever tão bem.
Beijos.

Nanda disse...

Acredito que vc incorpora diversos relacionamentos pra escrever assim bem.

EU QUERO ESCREVER COMO VC.

Beijo feio

dezinho. disse...

GÊNIO!!!!!!!!!!!!!!!!!

Anônimo disse...

Paulo, vc é estranho.
Mas eu gosto.
M.F.

Samantha Abreu disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

Será que a esperteza dele é saber da esperteza dela e a dela saber da dele, e "viveram felizes para sempre" agora?

Que onda..hihihi

Grazzi em ContRo disse...

Será que a esperteza dele é saber da esperteza dela e a dela saber da dele, e "viveram felizes para sempre" agora?

Que onda..hihihi

Anônimo disse...

Você está falando da "jardim japones" ou da pern aguda?

Mamãe

Anônimo disse...

Gostei muito, Paulo.
Já te disse e repito... tu és um tradutor de sentimentos!! Esse texto é feito de retratos de cotidiano, fragmentos da vida diária a dois e das subjetividades que envolvem o relacionar-se.
Atingistes delicadamente o ponto certo.
Estava com saudade de ler algo teu.
Beijos.
Dani

b disse...

Bom que a mulher seja de um azul.
Elemento ar.
Volátil talvez e muitíssimo inteligente, mas só isso.
O homem , um prisioneiro de algo, não dos quartos, não da relação.
Um prisioneiro da belezura do sorriso azul.
Casal igual a todos.
Mudam cenários e palavras.
Muda a luz.
Mas não muda a essência do in suportável.
Que pode ser insuportável ou o que se suporta "in".
Tudo dentro.
Pura penetração.O texto todo.
A negação é de mentira.

Samantha Abreu disse...

Veja, antes de falar da maravilha do texto, quero comentar sobre a incrível força sinestésica dessa foto. Baudelaire me entenderia, e acho que você também. Rs. Ela é linda, parece ter um movimento que dá som ao texto.
Depois, vem as sensações do texto. É doce, mas não é melado. Por isso, não enjoa. E eu fui lendo, comendo, sentindo, lendo, ouvindo a minha voz enquanto lia aqui dentro, vendo cenas, (re) vendo alguns amores... quando caí em mim, parecia que estava lendo um diário que escrevi no último amor (já não importa se ele está vivo ou morto), mas, embora algumas coisas pareçam minhas, eu nunca as vivi. Olha que bacana! Talvez, essa seja uma boa experiência pra quem escreve: passar identificação pra quem lê, sem que a pessoa tenha vivido exatamente aquilo. E as dores do amor bonito são boas de ler. Já disseram uma vez na voz da Elis: 'pergunte ao seu orixá, amor só é bom se doer...'. E é mesmo, oras.
É isso. Achei linda a correspondência do que ouço da foto, do que me escuto te lendo e do que lembro ao te ler-ver-ouvir. É um bacanal de sensações agridoces. Feito café amargamente forte, mas muito bem adoçado.
Um beijO, Paulo.

Anônimo disse...

Bacana essa história parecida com as que se contam em Márcia Goldshimit.

C.M

Ítalo Nascimento disse...

Reprodução exelente da mente humana. Nos ambientes íntimos é que os problemas de cada cabeça mostram suas reais proporções.

Anônimo disse...

Usamos xícaras, talheres, pensamos em outros lugares q não seja o aqui, meus livros nunca ouviram tuas músicas...nunca senti tua mão na minha roçando o branco e preto da fotografia em que nunca estivemos...Esse teu varal me enjoa, mas não digo nada. E tú, és o silêncio da capela esquecida na beira da estrada onde só as horas se ajoelham com todo o peso dos dias idos... E essa porta é tão pesada!!teu riso dói meus dentes qdo mastigo a ausência de nós dois. Não aprendi a fazer surpresa 365 dias, serve um? ; um apenas?em que tirando toda essa fumaça do cigarro que me alivia dia a dia, eu tenho uma mísera proposta a te fazer:
-bastaria que me olhasses nem tão profundamente para q meus olhos te ejaculassem uma lágrima, uma só, bem densa de presente...gosto da vida e de ti; não sabes... será que teu sorriso me tiraria para dançar? e o pior de tudo é que eu nem estremeço teus sonhos...

Alessandra disse...

Achei o texto incrível, mesmo. O relacionamento imperfeito, real... meio obcessivo, dependente, mas acho que sempre tem um lado mais fraco mesmo. Pra ser a perfeita realidade, só precisa chegar ao fim, acabar como tudo acaba.
Eu sempre percebo que as pessoas aproveitam melhor aquilo que elas sabem que está por acabar. Se você sabe que vai morrer, faz a viagem dos sonhos, come no restaurante mais caro, trai o marido ou a esposa pra lembrar como é o sabor da novidade. Se você sabe que alguém querido vai morrer, fica perto, elogia, cuida, diz o quanto a ama... talvez por medo de se arrepender de não ter falado, talvez pela realidade da perda, que clareia as idéias e sentimentos, sei lá. Assim, se você sabe que relacionamentos sempre acabam, que a atração e a novidade inicial sempre morrem, você tentará aproveitar o máximo possível dos momentos que existirão entre o começo e o fim, sem se iludir nem se chatear quando acabarem.
É isso, pro seu texto ser perfeito, só faltou o fim! =p

CL�UDIA disse...

pra ke complicar tanto o ke eh simples. pra ke inventar fórmulas pra fugir da rotina, se ela vai chegar do mesmo jeito. e se vc não amar realmente vc vqai ficar infeliz. do mesmo jeito. sexo eh bom ao vivo. e dois juntos podem se sentir livres se realmente se amarem. se entenderem. hipnose no sexo deve ser algo trememendamente chato. onde está a ação??... a fricção... a secreção... o chupão... o pescoção... e tudo ke tiver ~~ao ão de tesão paixão. eu prefiro estar perto. o mais perto possível. se possível dentro. quase o tempo todo. á á á a´a

Nadir disse...
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Mulher disse...
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Mulher Sorriso disse...
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Mulher Sorriso disse...

"Você continua sendo meu tesão louco e livre" !

Inclusão inabalável!

"Sorri e vai dançar com seus fones de ouvido".

Exclusão sincera!

"Lindeza sem nome. No dia em que eu conseguir descrever o que sinto quando você sorri, já aviso calado, chega, chega mesmo. Eu... tentarei sair daqui".

Um dia..., restará uma brecha da lembrança.

Abraços, Paulo.

izabel disse...

vou ler de novo. fui gostando no durante. sabe, 'as coisas que não existem são mais bonitas'. estando com os cigarros normais ou os anormais. são sempre elas.
bj.
ah, aquela do levante é deliciosa demais. dizer que não é um levante um pedido de um prazer a dois.
parabéns, caro mio.

albert-silvia-lurdes disse...

Porra não puxa o fio do playstation meu...(desesapero do casal novinho)

Fui nesse toma cá da lá teu e da Grazzi:

Diálogo interno de cada um:
ele: eu com essa paixão e obsecado, por enquanto...
ela: eu nessa dureza com esse bosta...
Diálogo interno de cada um sobre o outro:
ele: ela nem me liga...
ela: ele viaja muito...

Gostei dos dois textos pacas, no Sem Onda Paulo é ótima a localização do personagem e como se sente a respeito dele mesmo no início, depois as mazelas dos casal com a distancia da união e tentativas de alegrias e por fim ( e entre todo o texto) a imagem dela... e o prazer é de quem?

Mas o que dá prazer numa relação hein?
Porra não puxa o fio do playstation meu...(desesapero do casal novinho ou desespero de uma mãe com o filho?)
O relacionamento e a descoberta da porcaria que vem junto.
Paulo Leminski se não me engano:
haja hoje para tanto ontem...

Anônimo disse...

Xícaras de Berlim? porra!!tomo café sózinho, eu a lamberia na boca,a beijaria no sexo e depois nem deus saberia...façamos um trato, esquece hoje de tomar essas bolinhas destruidoraras de porrinhas indefesas. Pensa, mudaria nossos hábitos, teríamos uma comú individual a tres!pensa por esse lado, tres porta - retratos, livros de Simone de Beaauvoir, Oscar wilde e os Tres Porquinhos que comeram o Lobo Mau, tds no tapete da sala... pensa!! faria todas suas vontades, apesar que bem... gostaria q vc tivesse no meio da noite, vontade de chupar limão; é convenhamos, é um desejo barato, mais pode pensar em outro tb, não to insinuando nada! ele ouviria canções dos boêmios dos bares desde pequeno, no seu mp3, dividido entre dois ouvidos (seu e dele), e eu; pertinho, pertinho pegando uma beirinha... e sonharia com gnomos vestidos de fadas; E eu então, fumaria café e tragaria bem fundo o sorriso de ´vcs dois. eu ficaria azul todinho, lembra qdo eu me borrava em vc/
vc nunca sabia onde terminava a noite e eu começava,..já acharia meus pais sendo avós! olha q vantagem!
já pensou/ pularíamos aquilo de sogro e sogra!! deixa eu te fazer um filho em cima das notícias de hoje? nasceria atualizado já nesse mundo de competições. vc ficaria bundudinha, cheinha e tesudinha hum! minha pipa tá no alto só de pensar... vc não disse que nos falta um oboé/ então, vai ter apito na sala, teclado no banheiro, . deixa vai, eu fazer um filho dentro do teu sorriso? e eu serei escravo dos poemas que nascerão pra vcs dois... e dormiremos então com o leve barulho de um pião dançando uma partitura de valsa no piso instrumental da sala de jantar ; chega pra cá, chega...
maria de Fátima Prado

noite disse...

Paulo um textO de uma primasia supimpa,parabéns...noiTe