sexta-feira, 11 de maio de 2007

Dueto Dentro De Si.






O jazzista ouvia lá debaixo a menina jogando handball. Estava, ao acordar no despertador de som violento, sem idéia alguma. Depois, sentado ao piano, topete e calda, instrumento cor pêssego, todo o sistema sonoro exposto, sem tampa, sem oculto ou mistério: o esqueleto da música.


A menina jogava sozinha, no entanto de alegria que fazia risos, como cócegas no ar que circulava o vento, sublime vaporosidade urbana, e ia batendo em tudo, metais, portões, tomadas públicas. O jazzista nunca teve uma só aula de piano formal, moral, o jazzista já fez muitas besteiras e besteiras foram feitas com ele, de um tanto, que já não sentia desejo de culpar ninguém, nem a si mesmo, o que, em matéria de arte, traz um imenso vazio criativo. Ele sempre vira a criação como ressentimento. Não como a menina que vai jogando bola, embolando, atravessando a manhã, atravessando risinhos e dentes puros. Cada cigarro que ele fuma, cada luz que passa no teto, adivinha as cores dos carros lá das ruas por esse tipo de cinema...ele começou a carreira tocando em filmes mudos, para espectadores que amarravam seus cavalos e motocicletas e naves espaciais lá fora, dependendo do que mostrava a tela e anseios desesperados, assim ele imaginava os anônimos, que ao final da sessão aplaudiam e gritavam, "menino, que bom que você não está apenas lá fora, jogando uma maldita e irritante bola".

Não que fosse isso que gritavam, na verdade, na maior parte das vezes, era isso que ouvia dentro de si, buscando vaidade naqueles olhos murchos, sangrando fumaça na época em que iniciaram as Grandes Depressões.


E agora, para cada vez que a bola da menina batia em uma superfície diferente, ele buscava o correspondente daquilo nas teclas. E quando ela ria, ria do quinto andar também ele, de modo que sendo o riso uma constante, se fez a melodia acertada, com barítono e algo, talvez algo como contralto e fadas, allegro sem dúvida, já que o ritmo se estabelecera muito antes: a beat alegre de um coração, que cansado de tudo, abandonou o tudo até então. E se fez novo, sadio, assim sendo, nada de maldita tinha a bola da maturidade que ainda dança e ginga, nada de condenável a deliciosa perda de tempo, nada de orgulhoso o existir enquanto artista.


Quando ele a viu pela janela do quinto andar, horas antes, após lavar o rosto, toalha apoiada contra o pescoço longo, idade para filha, muito possivelmente neta e melhor parar por aí nas rugas( ainda muito queria avançar com a alegria do handball, simples assim mesmo), obtivera a batida, a ressonânicia sonora, tradução em tempos tonais do afeto despertado, ainda mais por saber que a única comunicação possível com ela, a única que desejava, por ser em si já completa e divina, era o som, a bola, o piano pêssego em calda, ditando frases versáteis de salmos inéditos.


Assim foi a brincadeira que invadiu a tarde, que ninguém veio incomodar com as leis do almoço, banho, escola, ou com o tempo para fechar o próximo disco, ensaiar o show, treinar os dedos. Ela, sem dúvida também o ouvia como parte de si, o que ficava claro na maneira intuitiva ( & gargalhadas sempre ) com que buscava alternar os sons, no entanto, sem saltar de um agudo para um deveras grave subitamente, parceria estabelecida, todo amor vai calmo, em crescendo, ou sereno adormecer- com sonho e sol -, a bondade da menina maestro, então, e ele a seguia sob sua maneira adulta de ser ainda mais infantil que ela, apenas um átomo feliz e levitante, no meio da sala, do mundo, e a menina poderia se chamar tão somente: Deus.


A bola. O riso. O piano. O riso.

E o jazzista,

A menina, juntos

já não se continham e gritavam, tecla, parede, pancada, escolha,
gargantas floridas,


até que todos, sem dúvida todos, no universo( esse do tamanho de dois seres humanos mergulhados em linguagem própria, como confeito, beijo de saudades, retorno para casa...), todas as bocas e almas até então mudas, filmes por ressucitar, assim ouviram, até dentro das naves espaciais, inclusive a gravidade que se fez maçã, mesmo o mais distante peregrino sobre o lombo de um burrico, no deserto além-da-vida[-triste],


assim, todos continuaram ouvindo até hoje, até mesmo aqui,

até mesmo quando eu volto a ser

tão somente,

simplismente,


básico inclusive,

eu


mais

você.

°

8 comentários:

Patricia (moça estrelar) disse...

Palavras lindas que me fizeram por instantes viajar pra um lugar distante, porém tranquilo e mágico.
Como é bom ti ler...é essa a sensação, de estar lendo vc.
Muito lindo o texto, poesia pura, fascinate, contagiante.
Estarei sempre por aqui Poeta.
bjos

Anônimo disse...

Prazer de não esperar por nada além do que o momento oferece... fuga dos planos,perspectivas vazias porém ternas... sabia inocência! Ouço o riso da menina, divido contigo...
bjo
Dani

MilaF disse...

É um paulocastro em sua melhor forma.

Prazeroso = constante, e inocente = novidade!!!

LINN disse...

A captura de um instante! O mágico possível!
Em sua mais clara e pura essência!
O meu grito inicial..(meu levitar profano) descarrilou-se em verbo:
---SOMOS TODOS IGUAIS, MERECEMOS !

Sei os teus dedos Paulo, na condição de astutos comparsas cerebrais ..que, aí vibraram em UNÍSSONO com aquele sábio orgão que pulsa, que jateia arquivos ainda enclausurados..., alheio a tua vontade, ao teu desejo e reclama: sai da frente, quero ser! o nosso "amphore", sou EU que administro. Não me olhe tanto!.. só aceita.

PARABÉNS Pa-lo Cas-trou. Agora tens a chave. Guarde-a.

cássio amaral disse...

Pauleira,
Seus textos têm barulho brother. E, é assim que tem que ser: TER BARULHO.

Jazz no som do inominável, som tirado de pedras stellares, de sóis q derretem madrugadas a dentro.

Abração velho.

P.S. LAN HOUSE É UM TREM QUE DÁ UM BOM CONTO, UMA BOA PROSA. Risos.
Trash, o lixo também é matéria de escrita.

Paulo disse...

Paulo,

Um dos melhores textos teus que já li.
Logo nas primeiras palavras (ou devo dizer acordes?), a música "Palhaço" de Egberto Gismonti invadiu minha mente vinda de um tempo de naves espaciais estacionadas na varanda.
Parabéns!
Paulo D'Auria
http://paulodauria.zip.net

Izabel Xarru disse...

Amor. E uma escrita deliciosa, musical, pessoal, fazendo água escorrer da pedra. Uma água com cheiro forte de água de pedra.

Mônica Montone disse...

Tinha deixado um scrap: terça [?]

Descobri um compromisso [!]

Apaguei [.]

Quinta [?]

beijos [ssss]

MM

ps: seu orkut não me quer por lá.... não me deixou comentatar [arrrrrrrrrrr]