sexta-feira, 20 de março de 2009

Piscina Aquecida...


( Tudo que se passa a seguir antecede em 15 anos no que está acontecendo nesse exato momento na história escrita por Grazzi Yatnã em http://grazziencontro.blogspot.com e por mim, aqui. Como já disse, cada trecho pode ser lido separadamente, mas é mais tesão seguir a ordem. Ou a desordem. Entre lá e aqui).
[15 anos antes]
Inverno. Um pequeno bistrô com aquecedor à fogo. Ainda era permitido fumar dentro dos ambientes. Ainda era permitido um monte de coisas, que resumidas eram muito pouco. E tal fato é o que traz esses dois ao bistrô quase vazio, um quadro de Lautrec um pouco melhorado, mas tão anão quanto. Os pratos já esfriavam sobre a mesa, mas o maitrê não se importava muito. Cada garrafa de vinho pedida, ora por ele, ora por ela, era crescentemente mais cara que a anterior, e as cabeças já estavam tocando o teto, sem no entanto incomodar outros clientes: aqueles dois falavam baixo, a maior parte do tempo, se olhando nos olhos. Alguns movimentos eram não exatamente suspeitos, para aquele jovem serviçal treinado em não julgar e chamar o segurança em último caso, não suspeitos, mas apenas estranhos. Porém, lá vinha outra garrafa de vinho, clamada por um indicador levantado. Ele, ela, tanto faz.
- Como foram esses meses sem mim ?
- Muitas vagabundas. Mas nehuma chegava aos teus saltos.
- Agressão, elogio ?
- Sonolência em saber exatamente como cada um desses encontros iria começar, se desenrolar, terminar e "a senhora pode fechar a conta da suíte luxo 220 ?". Tanto dinheiro jogado fora. Elas pediam por cocaína, outras por carinho, algumas por um pau imediato, várias queriam conversar. Mas sem diferença alguma, tudo seguia uma espécie de ritual cansativo. "Me passa o teu celular?", "Só se você prometer ligar....". Com poucas variações.
- A revolução sexual. E os testes da Revista Cláudia. Um dos motivos para decidirmos nos separar foi o resultado de um desses testes que fiz enquanto alguém fazia meu cabelo.
- Está mais bonito assim. Desfeito.
-...era um teste sobre "ele tem a ver com você?". ou " garantia ou perda de tempo?". Eu cheguei, mostrei, você aprendeu que deve reparar nas mudanças de uma mulher, um brinco novo, um anel, a depilação, e portanto elogiou meu cabelo, comparando-o em prós e contras com o corte anterior. Eu joguei a revista no seu colo, na página aberta do teste e tentei ir para o quarto. Você me segurou firme pelo pulso. Você aprendera que uma mulher arisca precisa que alguém a pegue forte e...mais um tinto argentino ?
- Pede. Um melhor. E os caras ?
- O que mais chama atenção neles é no antes, o perfume e no depois, a maneira como chupam. Os adocicados parecem ter nojo. Os da moda fazem a coisa te olhando e piscando, se achando ultra sedutores. Os amadeirados invariavelmente não chupam. E comprei um vibrador.
- Ará ! Como foi isso?
- Entrei na loja, a mulher era uma negrona alta e gorda, bonachona, um sorriso que deixa qualquer um bem a vontade.
- Tipo esse nosso papo?
- Não, melhor. Ela tinha uma finalidade bem estabelecida, me vender algo.
- Entendo.
- Ah, sim ! O teste da Revista Cláudia e essa mania intelectualóide de dizer "entendo" a tudo que digo.
- Veremos logo o que você vai fazer com isso. E agora, a negraça e o vibrador ?
- E um filme pornô. Uma fotografia da contra-capa que chamou a atenção. A atriz estava em um banheiro sujo, e da parede dele tinham vários buracos, coisa de centenas, e de cada um, um caralho
- Boca suja...
- ...uma pica, ela ia se revezando ali. Eu avançava e pausava o filme, marcando com a caneta na tela os paus que ela já tinha acarinhado....impressionante, ela só voltou para o primeiro após terminar o último, e numa ordem crescente de tesão, ao menos para mim, esse controle absoluto, essa regra completamente puta em ser totalmente exata. O vibrador, bom, ele tem o formato de um de verdade, mas tudo é exagerado, as veias muito grossas, a cabeça muito larga...garçom, um chileno rosso, por favor....e era frio. Isso que mais incomodou, o fato de ser frio. Girando uma rodinha, uma espécie de acelerador, você até podia aumentar ou diminuir a velocidade, mas aquela coisa era fria. Foi quando, certa manhã, o joguei dentro da panela onde a água do café estava fervendo. Deixei um pouco e abandonei o café. A tal da revolução sexual, como fiz com você. Um dos maiores orgasmos da minha vida. E assim foi, quanto mais quente melhor.
- Isso é nome de pornochanchada da década de setenta.
- Não. É um filme da Marylin.
- Sem grandes diferenças.
- Eu o aquecia diretamente no fogão. Depois comprei um isqueiro rosa, só para ele. Até uma noite em que tive a infeliz idéia de sair com um amadeirado, fiz ele gozar logo e coloquei o consolo no micro-ondas....
- Imbecil ! Outro chileno, rapaz !
- Pois é, derreteu. Abri a porta do micro-ondas e lá estava o cacete de borracha derretido, sobrando apenas as bolas na base, como uma memória inexata. Cai no chão da cozinha e chorei. Me lembrei de você.
- Saudades ?
- Não, metáfora.
- Entendo.
- Você falou de propósito.
- Entendo.
- Ódio. E ainda faz aquele mesmo barulho pra chupar o macarrão ? Tosco !
- Entendo. Entendo.
- Muito bem, calma menina, calma, você está aqui com ele exatamente para resolver isso, isso, o fato de estar com ele e existir uma vida e nessa vida, uma parte conjunta de ambos e que nó foi atado de maneira satânica, sim , pense, pense.
O garfo sobre a mesa. Em um movimento bruco-rápido ela o toma em unhas roxas e enfia. O garfo sob a mesa, na panturrilha esquerda dele. O maitrê vê apenas panos e o homem morder o lábio inferior. Até aí tudo bem. O inverno. O aquecimento à fogo, "je t'aime moi non plus" no ar.
- E aí, seu merda, continua "entendendo" ? Continua tendo seu programa preferido? Continua sabendo escrever poemas perfeitos, hein ? Entre cinema e teatro ainda fica bem antes da sétima arte, a não ser que tenha levado Cannes ? Ainda Entende, entendido do caralho ? Vai, fala agora, fala você que disse que nosso nó nunca se desfaria e que eu jurei o mesmo e agora está foda, foda, foda ? Me olha na cara e ENTENDA isso ! Não me entenda, não se entenda, não deite no divã, não nos entenda, apenas sinta que vou enfiando essa coisa cada vez mais fundo na sua perna....
- ...
- Fala. Vai desmaiar ? Chilique ? Vai brigar ? Vai citar algum filósofo e depois me dar um soco na boca, canalha ?
- Me passa um cigarro.
- O que ?
- Me passa um cigarro. Pode deixar que eu acendo.
- Não...não....toma, eu acendo pra você.
- Obrigado.
- Você está legal ? Merda, pirei, pirei, merda, calma, vou tirar com tudo, veloz, dói menos e vamos pra um pronto-socorro, a gente inventa uma história doméstica até chegar ao plantão e...
- Duas coisas.
- Fala, diz !
- Enfia mais fundo o garfo. E pegue no meu pau.
-...
- Faça, meu amor, faça.
- Você é doente. Caraca ! Está mais duro que pedra !
- Vai, isso, pra cima, pra baixo, eu vou gozar....não, ainda não.....
- Doente ! Maluco, porra, mas como está duro !
- Você está um passo atrás da solução.....ah.......
- O que ?
Outro movimento veloz, agora da parte dele. Mãos de unhas por fazer, a faca. Entrou até a metade na panturilha direita dela. O maitrê e cada coisa que a gente tem que ver nessa profissão...
- Sentiu ?
- Estou sentindo, cara, estou sentindo....ai......
- Ai.....
- É um caminho perigoso que a gente vai pegar....
- Eu acho que sim, linda, não entendo nada mais, apenas acho que é ...ah....perigoso e o nó ainda mais forte.....
- Enfia a mais a faca....
- E você, o garfo....
- Chega no meu osso.
- E você no meu.
- Senhor, senhora...a cozinha está fechando e eu gostaria de
- A conta. Vai, a conta seu merdinha.
Ele preencheu no cheque tremendo. Ela assinou suando.
E se levantaram.
Abraçados, amparados. O amor ! Possivelmente agora ficarão aconchegados na praça que a prefeitura acaba de iluminar melhor para a segurança dos românticos.
Opa.
Sangue ? Uma piscina de sangue ? E o rastro....Porra !!! Dois doidos ! O segurança, o segurança.....
- Manoel, chama o Cardoso pelo rádio.
Os dois saindo pela porta acortinada, abraçados, mancando, deixando o rastro e se acariciando silenciosamente os cabelos, afagos.
- Nada não. Esquece. Rápido, balde, água, escovão ! Rápido, moleque, vai !
º

18 comentários:

Cris disse...

Tudo com vc é forte e poético ao mesmo tempo. Aprendi a ver isso, Paulo.
Beijo.

Cris

Pat disse...

Bem excitante, mas prefiro técnica mais suave. :)

MM's disse...

'...essa regra completamente puta em ser totalmente exata.'

'Sangue ? Uma piscina de sangue ? E o rastro....Porra !!! Dois doidos!'

'- Nada não. Esquece. Rápido, balde, água, escovão ! Rápido, moleque, vai!'

'Os dois saindo pela porta acortinada, abraçados, mancando, deixando o rastro e se acariciando silenciosamente os cabelos, afagos.'


Paulo, bem clichê, mas cabe: 'Tudo vale a pena quando a alma não é pequena.'

Sabe quando existe excesso de saliva na boca? Devorei!
MAESTRIA!!!

MM's

DAPHNE disse...

a-d-o-r-e-i!!!
não conseguia parar de lê-lo
fiquei um tanto excitada...hehe
bjosssss
Má: A mãe da Cherry!

CL�UDIA disse...

... e finalmente viveram felizes para sempre...
muito bom. gostei muito. como diz o padre: na saúde, na doença até ke a morte os separe. Lúcifer acrescenta: na dor, no flagelo, na dependência emocional, no desconforto, no sangue, lágrimas... até ke a vida os separe (e junte de novo)
vc se supera, Paulo. mais e mais. admiro seu trabalho. sabe disso:D
beijo.

Cássio Amaral disse...

um trago do infinito
massagem de theca
corte do inominável.

pauleira, seus textos são simplesmente ducaralhos.

braços do abraço meu irmão.

Du²Glam disse...

Parei pra analisar a "alma humana" e vi que isso é um puta clichê! Nem acredito em alma mesmo!

Então, segui analisando o desejo humano... foi excitante fazê-lo. Mas não tanto quanto lê-lo.

É um prazer ser seu e-friend!

Amo.

Grazzi em ContRo disse...

Bebi. Delícia!
Um novo ritmo.

Bjo aí, parceiro.

Natália Luna disse...

Sempre há frases que se sobressaltam aos olhos nos seus textos. Gosto disso.

Abraço, Paulo!

Anônimo disse...

vc tá sempre tirando sarro...

Anônimo disse...

Tomo um vinho, enfio uma faca (grande, formada na ancestralidade)e....
sobretudo...
Entendo.
Mas só entendo depois de usar o canudinho no chão. Que é no chão que nascem essas pequenas doçuras.



Bel.

b disse...

Não conheço nós que sejam bons sem que apertem.
Não conheço amor que não cause dor.
Garfada e facada bastante justificáveis.
É prá doer mesmo, porque se estamos vivendo a mutua neura do amor, esquecemos da nossa própria e pessoal neura que precisa também ser acarinhada.
Dói prá lembrar que a gente existe.
Como diria minha vó: o que arde cura, o que aperta segura, no pessoal e no encontro amoroso.
Consistente o conto - digo - é mais do que simbólico.
E bonito é o carinho da saída, esbanja afeto essa parte.
Parece que adivinhei lá no orkut.
Rascante deixando uma lembrança suave nas papilas da língua.
Por que a gente procura essas coisas?
É tão boa a sensação do sòzinho no concreto....tão acolhedora a solidão e a gente vive se enredando.
Odeio isso.
Mas de todos os contos, foi o que mais gostei.
Acho que sou sado masoquista disfarçada .
Chega. Não é prá falar de mim.
Só existo no blog.
Além do blog, eu apenas sirvo.
"Sirvindo", silvando como uma serpente"
Que comentário mais estúpido!
E logo pro conto que mais gostei.

TALES FREY disse...

Paulo,

conheci vc hj. Comprei o "Red Shoes" numa livraria da cidade do Porto em Portugal.
Sou apaixonado pelo conto do Andersen e, por isso, acabei chegando ao conto do Caio F. Abreu, que encenei no Rio de Janeiro em 2006 e acabei fazendo apresentações até 2008.
Mais uma vez "os sapatinhos vermelhos" vêm dançar nas minhas ideias...
Belo texto! Pensei em colocar em prática. Posso?

Hasta Luego!

farinhademandioca disse...

Lindo.

dfenelon disse...

Ni para tanto, Ni para menos...Bueno!
El vino Chileno tambien.
lo veo como tu...
cortando venas de mediocres.
!
Viste?

jcacustodio disse...

ei, doc.


estou aqui agora.


pescoça aqui
inscrusive.blogspot.com

Junia disse...

Paulo, tu sabia q a ven ça quer dizer 'acordo entre litigantes'? rs
Talvez torcessem pelo macarrão,no prato estavam em plena suruba e isso pode ser algo de significativo a favor do tom rosê. Tímido ainda não se arrisca a ruborizar-se. Mas quer red,escarlate,na língua vermelha da cor do molho de verdade do macarrão.
Da cor do desejo, de meter sem misericórdia.

Junia disse...

Sim, pq para mim havia de ser uma macarronada. Rosê a princípio.
E no final as avencas fingiram nada saber. Cuida delas. Singelas.