sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Sombras nas Ostras.


Recomendo que sigam as últimas postagens aqui e em http://grazziencontro.blogspot.com, para tomarem pé da situação do projeto.
Grazzi escreve como bem entender um trecho da história, eu, em seguida, outro. Maiores informações nas publicações abaixo e na Grazzi. Um texto pode ser lido separadamente. Mas ganha em riqueza se for feito pareado, Paulo & Grazzi, cada rodada. Está uma delícia assim. Comentários de um texto, favor fazar nele mesmo e não em outro do Projeto. Grato. Boa diversão.
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***** Sombras nas Ostras *****
" Depende do acaso que reencontremos ou não esse objeto antes de morrer."
( "No Caminho de Swann", Proust ).
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Naquele dia o carteiro era outro cara. Nem ao menos vestido de amarelo e azul e uma caneta bic. Um senhor forte, alto, bem vestido, gravata borboleta, me passou as contas e em seguida me deu um murro na cara.
Limpei a boca e dois dentes na água e na luz. Respectivamente.
- Bom dia, postman.
- Ela é minha filha e nem sabe disso. Mas agora você sabe. Assobie errado, sabiá, e arranco seu timo para a moela de reconciliação familiar, vai tarde.
E se foi batendo a porta. Códigos de barra em hemorragia. Bala de gelo e o sofá com as overtures de Wagner na vitrola. Seguindo as regras, peguei papel e mandei algo como:
"Charlie Parker tovaca be bop com uma magnum . 44 entre os lábios".
Tomara que você goste. Demorou para sair. Logo antes do desmaio por inanição e dor. Precisamos temperar esses malditos cubos de gelume.
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Coincidência ou não, ou como sempre, mais ou menos, a brincadeira era nova no dia seguinte.
Eu andava na frente, fazendo coisas cotidianas, cantando garotas de rímel e emocore, pegando o metrô, indo ao jockey. E você estava atrás de mim, imitando e repetindo cada ato meu. Com a câmera de filmagem em mãos. Mas captava sua própria sombra. Não me mirava. A objetiva nas suas canelas. A boca latejando. Ouvi você rindo quando o carinha do banco não aceitou as contas.
- Ai, que noja !!! Creda !!!
Mais ou menos coincidência. Atrás de mim você gargalhava. Um riso espasmódico de choro desesperado. O desespero: o sentimento mais fácil de fingir quando negociatas afetivas estão em jogo.
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Ficamos um bom tempo nisso, e não recebíamos mais contas. "Débito automático". Ou "ande na linha, garoto". O teto de um templo despencar pode ser considerado um milagre? E sua sombra gemia bufanesca enquanto o dentista ( "Primeiro andar, segunda sala depois da Imobiliária "Futurex") enfiava as próteses e coçava o cu, o rabo e minha boca, cheiro de self-service. Existe soco no toba ? Dizem que é amor, os sensíveis.
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Em casa assistíamos aos vídeos. Você fazia pipocas. Eu fumava, colorindo as gazes que faziam alascas no meu maxilar. Paredes, ruas, grafites, e sua sombra sendo eu mesmo. A minha. MAS É ARTE, TÁ PERDOADO ! De auto-estima estou afins de uma dose caprichada de heroína antes de tocar para o público de marinheiros que ao me alisararem ao porto ( sangue brotando da gengiva em jorros súbitos e sórdidos), alisavam tua sombra e pela primeira vez nessa vida, gozamos juntos. Pra mim foi urro de náusea, porém você quem diz e acha lindo & você é minha sombra.
- Ei, Jorjão, desce um conhaque ! Sabe que minha mulherzinha não passa da minha sombra ?! Bem, desce dois. Melhor. A dela, dupla dose.
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O carteiro bem vestido sumiu para reaparecer um tempo depois. Quando o vi subindo a escada espiral, peguei logo o saxofone para me proteger.
Mas foi bastante citadino e apenas me entregou um bilhete dobrado à la Amigo Secreto:
" Atrás de um grande imbecil, há uma grande mulher. Queime isso. Presunto dos teus bagos no futuro do azeite fervente".
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Mais ou menos. Isso das coincidências. Logo após o bilhete, novas regras no trenzinho.
Você andaria na frente, tomando atitudes e táxis e garotas de programa.
Eu filmaria tua sombra e tentaria - isolado - te imitar os atos.
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A tarde na praia foi agradável, deixei a câmera cair na areia, moleque passou correndo, sujou a lente. De curto-circuito minha atitude medular foi correr atrás do pivete. Mas a sua sombra o abraçava logo adiante. SOCIALISTA ! SANDINISTA! DADAÍSTA ! Me ajuntei à vocês e fomos três espécies de anjos com íris de sol. Forçado, mas pra trucar: com uma torcida leve de cabeça, constatei:
Não havia sombra atrás de mim. De certo o horário, nada demais. Sei.
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ECT= Eletro-Convulso Terapia.
ECT= Empresa de Correios & Telégrafos.
Dizem que em nosso paisinho de merda as duas coisas são muito eficazes, pontuais e cheias de ciência e organização.
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Nos desabraçamos do ligeira e voltamos a pé para casa.
- Precisamos fazer umas trilhas ! Isso sim ! Te falta saúde e beleza !
Tropeçando no calçadão ficava mais fácil de dissimular: eu realmente estava sem sombra.
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Quando preparamos pipocas(-lhe) e sangue com charuto e rum(-me), o vídeo deixava claro:
Sua sombra estava adquirindo cores. E alto-relevos. Batom cereja dizendo claramete poltergeists de poemas que não eram meus, mas louvores às bravatas e antigos amantes e um tal de "papai carinho no banho".
Você pulava nas almofadas, passava pipocas na minha gengiva e tudo aquilo era bem o máximo para você.
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Seguinte, se um cara não teve pai, arruma um substituto. Um exemplo masculino. Acessei o mais próximo:
Fechei ambas as mãos e lhe meti bem no meio da cara. Querida, você apagou. Liguei a câmera, apaguei todas aquelas merdas de filmes raptores e acionei o GRAVAR em "close" na sua cara. Em poucos minutos ambos os olhos pareciam de guaximins atropelados na BR 220. A língua pendendo pra fora. Esse detalhe foi definitivamente uma zerada no placar da respeitabiliade erótica. O nariz soltava uma enxurrada de verdume couve com filetes de outros restos do almoço. Uma pipoca entupiu sua narina esquerda. A outra começou a fazer bolhas.
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Só então fui conferir: lá estava minha sombra. Longilínea como uma seta que dava direto no aparelho de telefone. Eu não tinha apenas sombras. Tinha enormes asas negras. Obrigado, papai carinho nenem. Eu poderia voar rente à bocarra dos crocodilos no Zoo.
Então - mais ou menos isso, da coincidência - o aparelho começou seu ganido agudo e ritmado, vibrattio. Caminhei com calma, quase missão, das certezas dessa vida sem bonus track.
- Garoto.
- Eu mesmo.
- Você não deveria ter feito isso.
- Sei, em mulher, nem com uma rosa. Mas fiz. Prefere Parker ou Dirty Harry, papai ?
- Estou indo aí. E espero que ela esteja viva. De qualquer forma, não será agradável para você, garoto.
- Miles Davis também é de foder a xota da macaca. Venha, papai. A porta está aberta. É só entrar. Estou preparadinho, seu merda. E acho que ela não está respirando.
- Filho de uma puta !
- Isso aí. Agora chega de papo. John Wayne ou Bruce Wills ? Até mais. Li num livro: depois de quinze minutos sem irrigação o cérebro vira borda com catupiry. Inté, florista de pediatra subornado.
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É isso aí, amiguinhos solitários !
Tenham um bom exemplo fálico e uma garota tutti-fruti-cult. Contem comigo nas confusões.
Mas agora seu herói predileto precisa arrumar uns truques por aqui.
Nos vemos em breve. E tudo pode ser corrigido, ok ? ( PISCA )
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10 comentários:

Grazzi em ContRo disse...

Ok(PISCA) Esse preciso reler tomando soluço na casquinha do siri.

dfenelon disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marky disse...

Vc é o escritor mais corajoso que conheço.Puta merda!

Anônimo disse...

Não sei se te amo ou odeio.
Só não consigo nunca ficar indiferente.

T.M.

CL�UDIA disse...

justiça seja feita: a examinar a quantidade de comida expelida pelos buracos dela, ela teve muita sorte por não ter morrido entalada, haja visto ke vc (seu personagem) alimentou e muito o ego dessa tuti fruti cult. até mesmo chegar ao ponto de perder a própria sombra vontade sonhos e tudo o mais. muito bem socado! e sem culpas! SEM MAIS MENTIRAS! bem socado metáforicamente falando, claro. somos todos contra violencia, até porke não se deve bater nem na sombra dos outros sob o risco de acabar acertando a própria sombra... á á á hahuahuahua... amei. te amo, Paulo.

b disse...

Sal grosso e alcatrão prá fazer da sombra uma múmia.
Múmia acionada com controle.
Remoto.
Remoto o controle.
Mas continuava sendo controle.
Afinal, como viver sem a sombra?
Isto resolvido então.
Enquanto isso...saindo uma voz mansa das axilas presas às asas negras, dizendo, repetindo repetindo repetindo a repentina verdade não pensada - se há muita sombra é porque há muita luz.
Isto resolvido também no fundo da questão que nem havia sido cogitada - rosas não machucam.
Só expressam o óbvio de quem não tem dentes nem sangue nem mãos em soco.
Múmia sombra movida jamais removida porém.
O que fica deve ficar.
Resolvidas as questões que vêm imediatamente após uma grande erosão.
Tá bem?

Deby disse...

hihihihihihi...concordo com a Cláudia.
Pancada nessa putinha.
vc é demais paulo:
cult e acessível.
Beijos aqui de paratys.

Deby.

Anônimo disse...

esse está delicioso, interessante, parece q foi escrito de um fôlego só e no momento exato. achei primoroso. me lembrou cortázar, cazuza, clarice (é, até tu,...),mirisola, paulo castro,rubem fonseca, etc. maravilhoso.

Bel.

DAPHNE disse...

Tirando a parte do texto q. eu não compreendi, por pura ignorância mesmo, o restante eu achei interessante, mas não gostaria por nada de receber um soco na cara, deve doer...
Bjos

Samantha Abreu disse...

sabe que tô com uma puta dificuldade de comentar esse texto sem ser com ele mesmo. Já li algumas vezes, umas na semana passada, outras agora... mas as frases ficam: "tum, tum, tum" na minha cabeça.
"O desespero: o sentimento mais fácil de fingir quando negociatas afetivas estão em jogo."
Negociatas entre sombras e sabores tuti-fruti, eu diria. rs.

Beijos, baby.